segunda-feira, março 29, 2010

Reforma católica

Escrevo a todos. Apesar do título, o que quero defender com esse
texto é, prioritariamente, a liberdade da espiritualidade.
Tenho reparado em muitos fenômenos no mundo religioso e aí me
refiro à muitas crenças em geral. Sobretudo as cristãs. Surgem os
chamados "padres moderninhos", há aprovação da parte de muita gente e
reprovação dos mais conservadores.
Resolvi escrever esse texto por causa de fenômenos que culminaram
em um determinado eixo da minha vontade. explico-me. Sou músico e
educador infantil e faz parte do meu trabalho estar sempre me
renovando e procurando material novo. Nisso resolvi baixar na web
algumas versões de "O caderno" de Chico e Toquinho. Linda música.
Simples e muito bonita. Eficaz. A letra, apesar de muito simples, tem,
á claro, como não poderia deixar de ser, em se tratando do maior
letrista do mundo, a poesia singela da infância (e da vida, me arrisco
a dizer).Uma outra versão era do próprio Toquinho cantando e uma
última, o Padre Fábio de Melo. Foi aí que tudo começou. Muito tenho
ouvido falar nesse sacerdote, mas até então quase nada sabia dele,
além do fato de ser mais um desses fenômenos católicos do tipo "Padre
Marcelo Rossi" e que é cantor. Mas quando ouvi "O caderno" na voz
dele, algumas coisas me vieram à mente. Primeiro, como músico, esse
ouvidinho chato e um pouquinho treinado não deixou de fazer a crítica
musical. A voz de Fábio é bonita, mas ele é um tantinho brega em seu
jeito de cantar, uma espécie de Fábio Jr. Mas reparei também no
arranjo para piano e gaita francesa, etc. Muito bem feito, a meu ver,
o melhor arranjo, das três versões que escutei. Não a melhor
interpretação, no entanto. Por incrível que pareça (e é realmente
incrível parecer isso) achei a interpretação do Chico a melhor, mesmo
com aquela voszinha dele, que a gente já conhece. Voltando à vaca
fria, quando escutei toda a interpretação do padre, vi que ele faz uma
espécie de interlúdio, onde fala e passa uma mensagem. Bem brega, é
verdade, mas comercialmente falando funciona. Mas, críticas musicais à
parte, eu, particularmente, gosto quando surgem esses fenômenos
católicos porque são gente como a gente e não figuras de sacerdotes
distantes e frios. A Igreja Católica tem perdido muitos fiéis porque
não estão sabendo viver o Amor. E nisso, também eu me incluo, já que
me considero parte dessa Igreja. No entanto, não me preocupa tanto o
fato de ser a Igreja Católica a estar perdendo fiéis. Mais me preocupa
o fato de, como Instituição antiquíssima que é, ainda não ter
aprendido com maestria a chegar em seus fiéis, pessoas que A amam,
pessoas que amam a Deus. E aí, quando surjem os Fábios e os Marcelos
da vida, eu aplaudo, sim, porque vejo neles esperança de uma Igreja
renovada. Aplaudo sim, porque vejo nesses jovens sacerdotes a
esperança de um mundo melhor. Aplaudo, sim, porque vejo neles uma
vontade feroz de renovar, de revolucionar (palavra que causa pavor a
certos grupos radicais) a Igreja, que resiste tanto a certas tradições
que há muito perderam o sentido... não sou contra a tradição em si
(ser contra por ser contra, sem nem saber direito do que se trata é
ignorância, preconceito) mas contra coisas que já perderam a validade.
Luto e anseio por uma Igreja onde o celibato seja opcional, onde haja
ordenação feminina, onde não haja, de forma tão sombria e aterradora,
um patriarcado kafkiano, mas um equilíbrio entre as forças feminina e
masculina, ou seja, também o matriarcado. Se Deus é Pai e a Igreja a
mediadora, ora, quero me sentir como filho perto de meu Pai e não como
uma barata atemorizada constantemente. Não quero viver sob a égide de
um medo construído ao longo de séculos, um medo que ameaça e não
cumpre, não quero ser como Kafka que por toda vida (mesmo depois de
adulto) sentiu um pavor terrível do pai embora esse nunca lhe tenha
batido. E quando vejo esses sacerdotes tachados preconceituosamente de
"moderninhos" pelos mais conservadores, sinto que ainda há esperança
de uma Igreja mais justa, mais humana, mais próxima de Deus.


Procurando sobre a vida de Fábio, na web, vi que há inúmeros sites
(inclusive a página oficial do sacerdote) e alguns deles criticando-o.
Injustamente, a meu ver. O argumento principal desses sites que se
dizem católicos é o de que ele (Fábio) estaria escandalizando a
Igreja, o que não é verdade. Ele apenas prega o Amor, e tenta fazer
com que as pessoas se aproximem de Deus sem sentirem medo.

Acredito que um dia, o Ser Humano chegará a tal ponto de evolução que
as Igrejas não mais serão templos de pedra mas estarão dentro de cada
um de nós. Jesus disse que a Igreja sempre existiria áté o fim dos
Tempos, mas não especificou de que forma, em que dimensão. Mas,
enquanto isso não acontece, enquanto a religião cumpre um papel
fundamental na Sociedade Humana, de amparar, acolher e oferecer Amor
(a despeito de todos os horrores e iniquidades cometidas pela Igreja
desde que Ela existe) esses sacerdotes servem e cumprem muito bem o
papel de mensageiros de Deus. Sim, há o lado comercial, sim, há gente
ganhando dinheiro com isso, mas no fim das contas, o que importa é que
acabam ajudando muita gente. E de forma até educativa, muitas vezes.
Carisma é um talento preciosíssimo. Ora, não crucifiquemos quem o
pussui, isso é inveja! Ao contrário, exaltemos que tem esse dom, na
medida, é claro, que esteja utilizando em prol do próximo. Ganhar
pessoas para Deus com carisma, Música, Amor... e não com medo e
condenações estúpidas.
Puxando só um pouquinho a sardinha para minha classe,
arrisco-me a dizer (com certos dezoito anos de experiência) que a
Música é, certamente, uma das faces de Deus e esses sacerdotes sabem
ou intuem isso. A Música realiza milagres de cura e não à toa...
maravilhoso quando se prega através da Música, essas pessoas merecem
toda nossa consideração e respeito.


Muito a se fazer, muito a se trabalhar. Penso que, dos lucros e
prejuízos da Igreja, os lucros são bem maiores. Seria infantilidade da
minha parte negar os prejuízos, que são as atrocidades coemtidas na
inquisição, os casos de pedofilia, etc. Eles existem e devem ser
combatidos. Mas deve ser combatida também a atitude de apenas criticar
e não fazer nada para melhorar. Sabemos que a casa precisa ser
arrumada, e se não estiver disposto a pôr mãos à obra, ao menos não
critique o trabalho de muitos. Não crucifique sacerdotes que estão
tentando trazer (ou levar) Deus às pessoas. Algumas delas (a maioria)
precisa dessa intervenção e nesse sentido, o papel da Igreja é
indispensável. Tem muita coisa errada acontecendo? Tem, é fato. Mas
para que só criticar e não fazer nada? Recentemente o Papa fez uma
carta de desculpa por casos de pedofilia em décadas anteriores. Há
quem diga "Mas agora, do que adianta"? Bem, já em um começo! Que mais
ele pode fazer por esses casos, além de se desculpar e começar uma
mentalidade nova? Por que só se critica e não se vê o lado bom? Eu não
simpatizo com Bento XVI,como Papa, e peço a Deus que lhe dê muita
sabedoria durante seu tempo no Vaticano, mas afinal, se queremos algo
diferente, mãos à obra, e se não quiser pôr mãos à obra, você é livre
para tanto, mas por favor, não critique quem está trabalhando por uma
Igreja melhor e mais acolhedora.

Aos pouquinhos chegamos lá.Apesar de muitos argumentos injuriosos
(não todos, alguns deles são fundamentados) a Igreja está mudando
bastante, sim. Não realizava Missa para os suicidas (um absurdo!) e
agora já o faz. Não se rezava em português (nem em língua nativa
alguma) há menos de cem anos e agora já o fazem. Não se admitia
qualquer outra teoria que não fosse o criacionismo, mas até mesmo esse
Papa conservador já admitiu a validade do evolucionismo. Não se
admitia a ideia de seres extra-terrestres por causa do arcaico
heliocentrismo mas já se admite tal ideia, com avau de sacerdotes
respeitadíssimos. Então, as coisas estão mudando e para melhor, graças
a Deus. Sim, são lentas, mas chegamos lá. Quem venham ainda muitos
Fábios de Melo e Marcelos Rossi revolucionar nossa Igreja! É neles que
tenho a esperança de um dia padres poderem se casar, mulheres poderem
ser ordenadas, o pensamento católico ser mais aberto, mais voltado ao
Amor e menos ao medo paralisador.

É verdade que esse Papa não colabora muito para uma reforma
significativa, mas ainda assim, penso que ele está fazendo o melhor
que pode, dentro de certos contextos. Não o vejo como monstro, como
muitos. Mas como um Ser Humano conservador (até por causa da idade)
com lampejos de ideias mais arejadas, por ser um intelectual.

Sonho com uma Igreja nova e reformada e já estamos trabalhando nisso.
Fica aí um convite. Se você é daqueles que só apontam dedos
acusadores, com argumentos mais velhos que andar para frente, bem,
tenho uma novidade para você: a sua novidade não é novidade nenhuma.
Sabemos que a Igreja Humana erra. Sabemos das atrocidades todas,
muitas delas escondidas pelos sacerdotes e papas, sabemos das
deficiências todas de uma Instituição formada por homens. Mas, no
lugar de apenas criticar e sentir ódio, que tal fazer alguma coisa
para mudar? Faça abaixo-assinados, cartas, blogs, sei lá, use a
imaginação para combater o que há de ruim na Igreja, se você se
incomoda tanto. Encabece uma campanha contra pedofilia, contra a
obrigatoriedade do celibato sacerdotal, sei lá! A web é uma arma
poderosa.

Fica minha mensagem e minha querença de uma Igreja mais receptiva,
totalmente voltada para o Amor,e não para o medo. Totalmente voltada à
caridade e não à politicagem. Que venham, sim, os "padres
moderninhos", que venham as mulheres ordenadas (papisas, inclusive,
como já houve uma), que venha uma Igreja cada vez melhor. Que venha a
Santa Reforma...

Amém!

2 comentários:

P.F. disse...

Esqueci de me manifestar!
Não sou católica, mas gostei bastante do texto...

Observador disse...

Que texto interessante! Mas, daí vem uma provocação: Qual a funcionalidade da 'mediação' da Sé? Não caberia a crença cristã - como a fé, de um modo geral - que seja algo particular, sem etapas para chegar a Deus?

Abração!