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quinta-feira, julho 03, 2008

Um ato de amor

   Sentou-se à beira do cais. Não tomou posse do momento. Apenas deixou-se invadir pelo mar. Tomar posse é fardo pesado demais. Tomar posse é para jovens. Tomar posse é sanguinolento.
   Para quem já é oceano, sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que é e sempre será parte do oceano...
   Já não existe fora e dentro. Existe... a ave de fora é a ave de dentro. As águas de fora beijam as de dentro e a espuma é a fronteira...
   O barquinho desliza livre de qualquer culpa. Livre de qualquer tempestade. A rocha não é poderosa ou resistente, ela simplesmente é. Mas simplesmente ser é um não-ato que só a Deus cabe, mas Aquele que É também é rocha e está e toda parte e já não há dentro e fora, simplesmente há...
   O azul do oceano, a resistência da rocha, o vôo da gaivota, tudo isso é varredura de palavras bestas que dissolvem o ato de amor. Mas o mar varre a sujeira das palavras para as reticências...
   Sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que...

quinta-feira, outubro 11, 2007

Olhos

Vejo você
E como vejo!


Vejo seus olhos!
Eles me falam
Eles me gritam!

Seus olhos me chamam
Vejo neles tanta coisa!


Vejo mansidão plácida
Misteriosa
Noite sem fim...


Vejo lua vermelha
Uma lua muito cheia
E muito vermelha...


Vejo seus olhos
Eles me vêem
Me engolem!


Vejo neles
Praias
Florestas
Casas
Quadros
Bibliotecas
Amor
Paz
Tristeza
Tanta coisa!

Seus olhos urgem
Seus olhos louvam
Seus olhos clamam!


Vejo neles
Vontade
Retração
Expansão
Morangueira
Luzes de mil anos
Séculos de espera
Sonhos perdidos
Mar, luar

Rosto embaçado

Enfim!
Vejo e Enfim nos seus olhos sem fim!


Me vejo
Te vejo
Vejo!


Beijos apaixonados
Na chama do teu olhar
E nós

Sendo consumidos

Para virar um só...


Vejo teus olhos
Te vejo lá dentro
Te abraço
Te beijo desesperadamente...

domingo, janeiro 28, 2007

Maçã-do-amor

Começou assim, inocentemente, como duas mãos que se vêem, como dois olhares que se tocam...

Tudo assim, por acaso, invertido... A roda gira e lá em cima tudo se perde confusamente... Até o tempo se perde, e da ordem vem o caos. Em meio ao caos os olhares crescem e são apenas olhares, essência, perdição da matéria, recantos lúdicos, onde jamais o amor descansa e ele não quer descansar! Ele não quer!

A roda pára. Lá em cima. E o amor gira. Gigante!

O amor é maçã, assim mesmo, servido em palito, camada fina de cristal doce que logo se desfaz na saliva e logo vem a parte sólida, que é devorada com avidez! Ainda a esperança do fino cristal doce, a saudade...

Lá em cima venta e é tudo do que o amor precisa... O sopro da brisa nas labaredas da maçã!
Vermelha... Efêmera... Eterna...