quinta-feira, julho 03, 2008
Um ato de amor
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O bicho
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quarta-feira, julho 02, 2008
Vou para...
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Marcio
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sexta-feira, maio 23, 2008
A redenção de Bernardino
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Marcio
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11:46 AM
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quinta-feira, abril 24, 2008
Viverei
O elo desse inferno é uma inocente e imaculada garotinha de sete anos. Sofia. Ei, Sofia! Psiu! Sofiaaaa... Você mesma, cândida filha da pílula... Só nasceu porque naquela pílula tinha farinha!. Pobre garotinha... Tão inocente e tão culpada... Seu pecado é ser a menina dos olhos do papai. Seu pecado é ter nascido. O propósito da tua vida é ser o elo desse inferno de casamento.
Segundo alguns trotes telefonicos, até família fora ele já tinha. Boatos esses bem prováveis. Uma vez até apareceu em casa com uma ninfeta chamada secretária.
Ela vai se matar, já decidiu isso há algum tempo e não a condeno. Olha o inferno que é a vida dessa mulher. O marido a chifra como quem ama. E ela sabe. Cada semana com uma, cada mês com cinco. Os cinco de onze, dez, nove, oito e sete são uns capetinhas. O de onze tem instintos maus e atormenta o gato até ele miar como se fosse uma fêmea no cio, o de dez não pára de correr e de falar, o de nove não pára de botar fogo nas coisas, o de oito não pára de perguntar "porque o céu é azul, o mar é redondo e a Terra é salgada" e a de sete é a cabeça da quadrilha. E sonsa, ainda por cima.
Saiu de uma vida de prostituta para ser parideira desse canalha. Precisa morrer. Merece morrer. Tem que morrer! E é agora! Dessa noite não passa.
"O que vai ser para o jantar, querida prostituta parideira?", "Frango para você e as crianças e salada com veneno concentrado para mim, querido chantagista canalha."
Esplêndido! Toalha branca com lindo bordado, panelas fumegantes, filhotes de banho tomado, comida maravilhosa, velas (vejam só), enfim, mesa maravilhosamente bem posta e ela! A bela dona-de-casa prostituta, com um sorriso na cara e um vestido vermelho ligeiramente provocante. Só esperando o maridão... Seria o suicídio perfeito. Seria a vingança perfeita. Ela só espera ver, de onde quer que esteja, a cara do marido, confuso, e como esse porco chantagista vai cuidar dos cinco porquinhos sem ela... Ah, já antegoza o momento final! O jantar perfeito e para ela, o último.
Chega, enfim, o chauvinista de terno e gravata. O porco beija a prostituta de vermelho hipocritamente e os dois, por alguns minutos, fingem que se amam. Ele desconfia de tamanha dedicação. Ela serve os pratos com um sorriso que não vai sair da cara até cair morta, se estrebuchando. O elo do inferno senta-se ao lado do porco enquanto a prostituta os serve.
- A salada é só pra mim - pronunciou, amavelmente- Estou de dieta - arrematou com um sorrisinho maroto.
O porco chegoou a sorrir e quase a amou novamente. Uma onda de ternura invadiu a todos. Invadiu os quatro anjos paridos, invadiu o elo do inferno, invadiu o porco, invadiu a prostituta.
Até oração teve, naquela casa de figuras kafkinianas. Enfim, tem início o jantar. O porco começa a devorar impiedosamente. Os quatro anjos parecem não tomar conhecimento de mais nada além deles mesmos e da comida em seus pratos. O elo do inferno estava triste. Pressentiu algo muito terrível.
A comida sendo devorada, muito a muito, e ela nem havia tocado na salada, ainda. Por fim tomou coragem e levou à boca a primeira garfada. Parou. A boca aberta, o garfo com a salada envenenada, no ar. Ah... todo mundo viveu, menos ela! Vida de puta não é vida! Vida de mulher desse porco também não é vida! A sonsinha é a filhinha do papai! Ganha docinho, presentinho e passeios caros. Os quatro anjos sempre fizeram o que bem entenderam. Incendiaram, gritaram, enfim, viveram! O porco teve tantas amantes quanto uma boa chantagem pode proporcionar! Só eu... só eu não vivi... e agora...
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Marcio
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1:28 PM
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domingo, março 23, 2008
Santo André... Ah, Santo André...
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Marcio
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2:23 PM
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terça-feira, janeiro 01, 2008
Reflexo
Com muita calma pintou as unhas de rosa, após um demorado banho de meia hora, onde fora gasto pelo menos meio frasco de shampoo.
Pela primeira vez na vida reparou nas mãos brancas e delgadas. Belas mãos. Após colocar seu vestido mais elegante (o vermelho), pegou a escova e penteou os longos cabelos castanhos, preenchendo o espaço quadrado do banheiro com nuvens de aroma adocicado.
Mirou-se melancolicamente no espelho oval. O espelho... Moldura dourada, em arabescos e pó-de-ouro já gasto...
Como era bonita...e o mais ironico é que só agora, após esse demorado banho de meia hora é que veio a reparar em como era tão bonita...
Tanto tempo de sua vida disperdiçado com um homem que sequer tinha a amabilidade de lhe dar um beijo quando ela chegava em casa.Preferia a televisão.Tanto faz. Toda essa indiferença já não fazia diferença a anos. A vantagem do desgaste do casamento é que logo se acostuma com ele e é mais fácil "empurrar com a barriga" do que recomeçar. Recomeçar é renascer e renascer dói. Dói muito.
Há tempo já não olhava para o espelho com tanta benevolencia... Há muito tempo não olhava para o espelho se surgisse alguém quando se mira... mas agora, pela primeira vez, em muitos infelizes anos, se permitiu olher. Se permitiu ser bonita. Se permitiu existir no espelho...
Pintou os lábios de batom vermelho vagarosamente, como há muito não o fazia. Quando terminou, depositou calmamente, em cima da pia de mármore, o peque no tubo cilíndrico e levantou os olhos ao espelho para se ver novamente, agora com a boca vermelha. Linda.
Durante os jantares, o grande silêncio vazio, totalmente encoberto pelo grande ruído vazio da televisão. Era melhor assim. Deixar a televisão cumprir com sua tarefa de anti-constrangimento.
Casou-se aos quinze anos com um homem vinte anos mais velho. Ele era magro, sorridente, gentil e amável. Agora é gordo (excessivamente), carrancudo, rabugento e amargo. Estão na mesma casa mas não juntos. Não de verdade. As conversas tornaram-se enfadonhas e sem sentido. Então emudeceram. As palavras, pouco a pouco metamorfosearam-se em grunhidos inintelegíveis, até sumirem quase por completo, reservando-se apenas ao escencial. Era mais fácil assim. Era melhor assim. Deixar as palavras para a televisão...
Abriu o estojo de maquiagem e , olhando para todas aquelas cores não pôde deixar de notar que pareciam guash... Um rosto a ser pintado, um quadro a ser eternizado...
escolheu a sombra primeiro e cuidadosamente contornou os olhos. Depois foi a vez do lápis e o negro dos cílios foi realçado.
Ao acordar e olhar para a criatura que dorme ao seu lado, não pode deixar de sentir um certo asco. Aquele homen gordo, roncando alto, se espalhando pela cama como se só ele existisse nela... talvez não fosse ele. Talvez aquele não fosse o homem bom com quem se casara há vinte anos. Talvez aquela criatura fosse apenas um rastro, assim como um vestígio do que fora um dia. Talvez...
Chegou a vez do blush. A vermelhidão artificial das maçãs faciais.
Já maquiada, olhou-se no espelho, uma vez mais. Com calma. Sem pressa de admirar-se. Como a vida é tristemente estranha... Há pelo menos dez anos já não fazia diferença abrir o estojo de maquiagem e no entanto agora, logo agora, fazia todo sentido...
Tudo muito bem planejado. Desde o posicionamento das cadeiras até o delicioso jantar, com direito a salada de entrada e vários molhos exóticos... exceto por um detalhe. A sobremesa! Como pôde se esquecer logo da sobremesa? Que descuido... Saiu às pressas até o mercado mais próximo e comprou um pote de sorvete de mamão com creme. o preferido dele.
Assim que abriu a porta de casa, o sorriso se desfez, lentamente... A luz estava acesa, as velas apagadas e ele à mesa, comendo... tornou-se um homem tão bossal com os anos que sequer se deu conta do que acabara de provocar. Apenas sorriu estupidamente e disse, com a boca cheia: -O jantar está ótimo, querida! Come um pouquinho também! Que foi isso? Uma surpresa? Eu adorei. Senta aí. Não fique aíparada.
-você... apagou as velas... - Conseguiu ainda balbucias.
-Ah, desculpa, amor... é que eu não gosto de comer no escuro, mas a comida está ótima! Que aconteceu? estava inspirada hoje?- Disse, acreditando ser isso um elogio.
-Não. É que, não sei se você se lembra, mas hoje é nosso aniversário de casamento. Você também tirou a rosa...
-Descculpa, querida, é que estava me dando uma alergia desgraçada, comecei a espirrar feito louco. Mas não se preocupe que eu deixei dentro do vaso com água.
Guardou o estojo, o batom e a escova, tudo calculadamente. Olhou-se uma vez mais no espelho e aspirou o cheiro adocicado de shampoo, vindo dos cabelos ainda molhados. Esse momento, assim como aquele jantar frustrado fora cuidadosamente planejado. Mais. No jantar faltou a sobremesa mas para esse momento não faltou absolutamente nada. Até mesmo do toque final se lembrara. A rosa vermelha nos cabelos... o toque de elegânicia, que finalmente a elevou da condição de mera mulher à deusa potentosa...
A sensação que dá ao acordar ao lado dele é a mesma de dividir a cama com um porco. Um homem que fede e não se importa com isso. Um homem que se contenta com uma vida absolutamente medíocre, que se contenta com um salário vitalácio e uma vida na poltrona. Invalidez obviamente forjada.. Ganhou na justiça essa barganha e agora fica em casa dia e noite, prostrado feito uma poia, de cara pra televisão, bebendo cerveja.
Abriu a torneira da banheira e deixou que a água a enchesse até quase a borad. Antes de entrar, apanhou a gilete no armário. Porque só agora a vida fazia sentido?O banho demorado, a maquiagem, a rosa no cabelo... esse momento não poderia ter sido evitado se aquele jantar não tivesse sido um fracasso?
Olhou laconicamente para os pulsos brancos e viu, nitidamente, as veias e antes de entrar na banheira com o vestido vermelho, o rosto maquiado, a rosa no cabelo e a gilete na mão, olhou-se uma última vez no espelho de moldura oval, ornado em arabescos e pó-de-ouro já gasto...
Permitiu-se ao menos uma vez se vingar do marido pensando nele como um porco. Permitiu-se ser bela e até mesmo altiva. Permitiu-se ser deusa. Permitiu-se existir no espelho...
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Marcio
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4:25 PM
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quarta-feira, dezembro 12, 2007
E se
E se as luzes se apagarem?
E se acordarmos todos baratas?
E se formos condenados pelo pai? E se o juiz bater o martelo?
E se o sol nascer?
E se a Terra girar? E se ninguém mais morrer? Nessa calçada cada vez mais estreita
Fica mais difícil se manter
Sem ser atropelado. E se a pedra cair pra cima...
O piano virar flauta
A água virar sangue tinto...
A vida secar...
O mar secar...
E o sertão molhar? Nesse sol de 50º está cada vez mais difícil manter-se no limite...
E se a música calar...
A arte se decompor...
E a pilha envenenar a Terra? Cuidado... E se as janelas não se abrirem...
As plantas saírem andando...
E a noite chegar? E se eles chegarm...
E se nós resistirmos...
E se nada disso acontecer? Agora é tarde... E se eu vacilar...
E se tudo for verdade...
Mentira
E aí? Nessa corda bamba, raros são os equilibrados. Caem todos, um a um... E se eu imaginar...
E se eu voar...
E se eu esperar...
E se acontecer?
E se...
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Marcio
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12:50 AM
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sábado, dezembro 08, 2007
Baseado em fatos (sur) reais, Largo da Carioca: A Arca
Um pouco mais adiante, a guarita da polícia militar. Em outro canto, o mendigo (não pode faltar...). Há também o espirituoso charlatão piadista que convence os igno... os ignóbeis de que uma boneca (sem roupa, sem braço e sem dente) irá se levantar e andar até um chapéu que ele coloca a cinco metros da dita cuja. E enquanto ela não se levanta e caminha por vontade própria até o chapéu, ele fica contando piadinhas tão engraçadas que me emocionam. E a emoção que sinto é tão grande que chego a andar mais rápido e o mais longe possível quando as ouço.
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Marcio
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9:55 PM
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quinta-feira, outubro 11, 2007
Olhos
Vejo você
E como vejo!
Vejo seus olhos!
Eles me falam
Eles me gritam!
Seus olhos me chamam
Vejo neles tanta coisa!
Vejo mansidão plácida
Misteriosa
Noite sem fim...
Vejo lua vermelha
Uma lua muito cheia
E muito vermelha...
Vejo seus olhos
Eles me vêem
Me engolem!
Vejo neles
Praias
Florestas
Casas
Quadros
Bibliotecas
Amor
Paz
Tristeza
Tanta coisa!
Seus olhos urgem
Seus olhos louvam
Seus olhos clamam!
Vejo neles
Vontade
Retração
Expansão
Morangueira
Luzes de mil anos
Séculos de espera
Sonhos perdidos
Mar, luar
Rosto embaçado
Enfim!
Vejo e Enfim nos seus olhos sem fim!
Me vejo
Te vejo
Vejo!
Beijos apaixonados
Na chama do teu olhar
E nós
Sendo consumidos
Para virar um só...
Vejo teus olhos
Te vejo lá dentro
Te abraço
Te beijo desesperadamente...
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Marcio
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10:20 PM
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sábado, julho 21, 2007
O encontro
Foi como uma daquelas coisas que acontecem sem a gente saber, e fica meio atordoado depois... Porque de alguma forma, era para acontecer e sabe-se disso depois que acontece. O improvável. O quase impossível. E no entanto, foi revestido de extrema casualidade, banalidade e possibilidade, que se deu aquele encontro.
Eu tinha oito ou nove anos, não me lembro bem, e estava de mãos dadas com a minha mãe numa loja de roupas. Um rapaz veio se aproximando em sentido contrário ao nosso, sem intenção qualquer, apenas andando e olhando distraído o interminável cardápio de roupas, como minha mãe e eu.
Acontece que se esbarraram. Literalmente. E o que, em circunstâncias normais, seria desagradável e o caso de desculpas mútuas, foi, ao contrário, (como descrever tal coisa?) um átimo do despertar, o mágico, o metafísico, e de uma beleza mais do que rara, única, e... reveladora. Naquele infinitesimal lapso de tempo, algo lhes foi revelado. Ao rapaz e à minha mãe. Jamais teriam ou terão a chance de saber o quê. Mas foi um momento lindo, daqueles que não se explicam, e eu, como testemunha, a tudo assisti, intrigado e ligeramente feliz...
Os dois continuaram se olhando, ainda por algum tempo, virando as cabeças para trás, e sorrindo um para o outro...
Momentos depois, quando perguntei à minha mãe o que se passara, ela apenas me respondeu o que eu já sabia, que havia sido um esbarrão muito especial, ela não sabia porquê. E lamentava, mansamente, por saber que um encontro como aquele jamais se repetiria...
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Marcio
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10:34 AM
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quarta-feira, julho 18, 2007
Em lugar algum
Vago perdido
Entre folhas e sonhos
Letras e rascunhos
Ir e vir sem fim...
Vago sem sentido
Porque vida
Não carece de sentido
Não carece de meio e fim...
Vago por todo lugar
Em lugar agum
E esse é o meu lugar
Sempre será...
Um dia sonhei com casa
Mas casa não é meu destino
É querer demais
De um errante como eu...
Vago por cronicas
Contos
Poesia
Perdição e mais perdição...
Errante no caminho das letras
Única estrada possível
Feita de dunas
Que vão...
Vou cego por aqui
Não tem volta
Só em lugares há retorno
Mas estou em lugar algum...
Sonho com repouso...
Redenção que nunca virá
Erro por caminhos de vento
Todo lugar
Viagem sem fim
Vago por todo lugar
E na verdade não sou em algum lugar
Mas em lugar algum...
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Marcio
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3:17 AM
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terça-feira, julho 17, 2007
Noite de Natal
Tudo era tão festivo. Na grande sala da última casa da rua Padaria ( e embora tivesse esse nome, não havia padaria alguma num raio de 100m) havia um belo sofá bege, com lugar para cinco pessoas. Havia também uma belíssima cristaleira, repleta de jogos de porcelana e cristal. Uma estante com livros os mais diversos, literatura brasileira, inglesa, alemã, livros de psicologia, direito, política etc. Uma televisão enorme de muitas polegadas, aparelho de dvd. Havia também um belíssimo lustre, vindo de Londres, e é claro, um tapete persa. E como era Natal, havia também um grande pinheiro, plenamente ornamentado com grandes bolas de vidro - sim, de vidro - coloridas, miniaturas de presentes, de botas e do bom velhinho. E um belíssimo pisca-pisca, de cinco cores e que pisca sincronizado com a música que toca. E é claro, presentes ao pé da árvore. Várias caixas coloridas. Na parede, um grande quadro com uma bela pintura de cores frias, retratando a noite de alguma capital fria. Londres, talvez. Uma bela mulher acabara de sair do banheiro, enxugando os cabelos e exalando cheiro de shampoo por toda a casa. Na cozinha, um homem placidamente cortava fatias de peru, distribuía ameixas e fios de ovos. A mulher foi até a varanda e observou lá fora. O marido, trazendo a bandeja com o peru para a mesa da sala, quando a viu, chamou: - Aurora querida, que está fazendo aí? - Só olhando... Ele depositou a bandeja na mesa, calmamente, e foi até ela. Suavemente lhe tocou nos ombros, por trás. - Querida, não quer me ajudar com os pratos? Já são quase dez horas, a Sandra vai chegar a qualquer momento com o Dário e as crianças. Tia Augusta também deve estar chegando... - Ah, nem me fale da sua tia, ela é tão desagradável... Não sei porque você tem sempre que convidá-la para nossa ceia de Natal! - Aurora, já conversamos sobre isso. Tia Augusta não tem mais ninguém, quero que ela passe o natal conosco. - Justamente porque ela não tem ninguém além de você é que não devia pisar nas pessoas, e ela sempre faz isso. - Ah, também não é para tanto, querida. Não vamos brigar por uma bobagem dessas, em plena noite de natal, está bem? - dizendo isso, beijou-lhe na testa. Aurora sorriu tristemente, mas concordou. A campainha tocou e ela foi abrir a porta enquanto Carlos levava as coisas para a mesa. Era tia Augusta, uma senhora de mais de setenta, gorda, baixa, de cabelo curto, pintado de um ruivo cafona.Tinha em uma das mãos uma bolsa com três ou quatro presentes. Na outra, uma garrafa de vinho português. - Boa noite, Aurora. - disse secamente, com uma voz grave e rouca. - Boa noite, D. Augusta. Vamos entrando. - Está bem. Ponha esta garrafa na geladeira!... Onde está o Carlos? - Acho que foi ao banheiro... - Puxa, que coincidência! - disse, sorrindo sarcasticamente. - Foi só eu chegar para ele sair da sala. Será que eu incomodo tanto assim? - Ah, D. Augusta, por favor, está bem? Carlos, sua tia chegou! Carlos... - e foi saindo da sala, com a frágil desculpa de ter que ir chamar o marido, deixando tia Augusta na sala, indignada. Carlos saiu do banheiro e se encontrou com a esposa no corredor, gesticulando raivosamente e sussurrando: - Vai lá, falar com a sua tia! Ela já chegou indignada por você não estar na sala para recebê-la! Carlos respondeu, baixinho: - Mas será que nem ao banheiro eu posso ir? - Diga isso a ela! - Vamos lá, falar com ela. - Vá você. Vou ficar lendo, no quarto. - Aurora, por favor, não começa... - Quem começou foi ela... Ouviu-se a voz rouca e alta, vinda da sala: - Carlos! Carlos, não vem falar com a sua tia? Como pode? Carlos! - Já vou, tia... Pode esperar um minuto? Carlos foi fazer sala enquanto Aurora enfiava-se no quarto, furiosa. - Olá, tia. Tudo bom? - Tudo bom, Carlos. A sua mulher que parece não estar lá muito bem, não é mesmo? Saiu daqui aborrecida, me deixou sozinha aqui na sala! - Ela não anda muito bem, tia... E a senhora bem que podia colaborar, não? - Mas o que foi que eu fiz? Só disse que achei engraçado eu chegar e você correr para o banheiro... - Eu não corri para o banheiro, apenas me deu vontade de ir ao banheiro, será que nem isso eu posso?! Estou trabalhando na cozinha sem parar desde quatro horas da tarde, preparando a ceia! - Está bem, não precisa ficar assim nervoso! Olha, eu trouxe uma garrafa de vinho e pedi que Aurora pusesse na geladeira para esfriar. Traz uma taça para mim, sim? Ele está simplesmente di-vi-no! Enquanto isso, no quarto, Aurora ligava para a irmã. - Alô, Sandra? Oi, querida, tudo bem? Tudo, comigo está... Bom, nem tudo. A tia do Carlos está aqui. Aquela velha insuportável... Já, já chegou, menina! Ela é sempre a primeira a chegar! E a última a sair, impressionante!... Ai, Sandra, eu estou sozinha aqui, você vai demorar a chegar? Jura? Cinco minutos? - Aurora abriu um sorriso de orelha a orelha com a boa notícia. - Salvadora da pátria! Beijos! Tchau! Na sala, D. Augusta, pachorrentamente sentada no sofá, tomando vinho, de vez em quando dirigia a palavra ao sobrinho, entre enormes intervalos de silêncio pesaroso. - Quando é que você vai me dar um sobrinho, Carlos? - disse, maliciosamente. Carlos suspirou baixinho e arqueou ligeiramente os ombros, já prevendo a ladainha de sempre. - Não sei, tia. Mas não vai demorar, prometo. - disse sorrindo, numa tentativa frustrada de dar o assunto por encerrado. - Pra logo? Você vem dizendo isso há três anos! - A senhora está cansada de saber que Aurora ainda não está pronta. - Olha, Carlos, eu não tenho nada com a sua vida, mas a sua mulher está te enrolando... - Vamos falar de outra coisa, titia?! - disse isso em tom já visivelmente aborrecido. A tia fez uma cara feia e não disse mais nada. A campainha soou e Aurora logo saiu do quarto toda contente para receber a irmã. D. Augusta, ao vê-la passar pela sala, olhou-a de alto a baixo, sorriu com sarcasmo, e disse: - Apareceu, Margarida! Que milagre! Aurora ignorou solenemente o comentário espirituoso e foi até a porta. A chegada de Sandra, Dário e as crianças aliviou um pouco o coração de Aurora. Quem fez cara feia para os novos convidados foi D. Augusta que, não contente em implicar com a mulher do sobrinho, atacava também a família dela. A ceia transcorreu lentamente, em silêncio abafado, perturbador... Vez ou outra alguém fazia algum comentário insosso sobre o tempo ou qualquer outra trivialidade do gênero, apenas para quebrar o silêncio. O clima era pesado, as pessoas ouviam as respirações umas das outras, tamanho era o silêncio. Apenas se concentravam na comida, com a cara enterrada no prato. O tilintar dos talheres era frenético e foi crescendo, crescendo, a ponto de se tornar um verdadeiro caos sinfônico metálico, onde garfos e facas subia e desciam em ritmo alucinado, transportando a comida do prato para as bocas, subindo cheios, descendo vazios. Embora o silêncio pairasse soberbo sobre aquelas cabeças, melhor seria continuar nesse estado do que ser quebrado pela pessoa menos indicada para fazê-lo: D. Augusta. Sempre ela... Tem sempre que dizer algo desgradável, e à mesa, com todos comendo... Em pleno natal... - Pois é, Sandra, você sabe que logo teremos um menininho correndo por aí, sabia? Todos se olharam, constrangidos. Sandra ingenuamente sorriu para a irmã e perguntou: - Aurora, você está grávida? D. Augusta logo respondeu: - Ainda não, mas o meu sobrinho me prometeu um menininho para esse ano próximo, não é mesmo, Carlos? - disse, sorrindo. Ninguém ousou dizer nada. A comida era farta, talvez para compensar a falta de conversa. Paulatinamente, o peru, as castanhas, rabanadas, uvas, o bacalhau com batatas, o pudim, o sorvete eram devorados. Quando, enfim, a meia-noite chegou, todos se abraçaram hipocritamente e trocaram presentes. E, para não ficar chato, para não pegar mal, as pessoas não foram logo embora, para depois não se dizer, pelas costas, que foram lá apenas para comer. Embora o caso de D. Augusta fosse diferente: ela não ia embora porque era inconveniente mesmo. E sendo tão inconveniente, continuou falando sobre assuntos desagradáveis ao sobrinho e sua esposa. Até que, irritado com tanta provocação, Carlos deu um berro, fazendo a tia se calar e ficar olhando para ele, indignada: - Chega!!! - silêncio breve - Minha esposa e eu não queremos falar sobre isso, e se a senhora insistir, vou pedir que vá embora e não volte!!! Pela primeira vez naquela noite (quicá na vida), D. Augusta teve bom senso e foi embora, sem se despedir ninguém, sem dizer palavra. Depois disso, o ambiente ficou, obviamente, mais respirável. Mas Aurora estava triste. Ela foi para a varanda se sentou no chão, pensativa. Estava como o olhar longe, perdido... Carlos se aproximou da esposa, cautelosamente, e pôde ver que ela chorava... A emoção também lhe veio ao peito, mas se conteve. Aurora murmurou: - Não me sinto preparada para ter outro filho, Carlos... - Eu sei, querida... - Eu ainda sinto muito a falta dela... - Eu também... - Até hoje não compreendo porque ela fez aquilo... Carlos não soube o que responder. Havia três anos apenas, desde aquele dia fatídico... Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender(...) (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
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Marcio
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12:49 PM
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domingo, janeiro 28, 2007
Maçã-do-amor
Vermelha... Efêmera... Eterna...
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Marcio
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11:20 PM
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segunda-feira, dezembro 25, 2006
Os óculos
Juliana deixou seus óculos cairem no chão, mas eles não se quebraram totalmente. Apenas rachou em cinco partes, e então Juliana passou a ver tudo quintuplicado. Cinco papais, cinco mamães, cinco irmãos menores, cinco sofás, cinco janelas, cinco professores de matemática, etc. Ela acabou se acostumando com essa vida quintuplicada.
Um dia, quando acordou e pôs os óculos, estranhou. Estava vendo só um de cada coisa. Uma mamãe, um papai, um irmão menor, um sofá, um professor de matemática.
Quando voltou da escola, já em casa, vendo uma mamãe, um papai, e um irmão menor, tirou os óculos... E viu então, cinco mamães, cinco papais e cinco irmãos menores...
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Marcio
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9:23 PM
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quarta-feira, dezembro 13, 2006
Fonte de doces
balas de caramelo.
Um dia, Lang Leng Lung levou um tiro perdido na barriga. Morreu, e ficou com um baita rombo. As crianças vieram até o corpo de Lang e, estando a barriga dele aberta, a criançada se esbaldou de doce...
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Marcio
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4:22 AM
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segunda-feira, novembro 27, 2006
O vale das moedas
Um garoto de dez anos deixou sua moeda cair em um bueiro, enquanto passeava pela rua com a mãe. Ele ficou muito desapontado e quis recuperá-la. Agachou-se para tentar apanhá-la pela tampa do bueiro, mas foi impossível. A moeda estava em um canto de difícil acesso para seus pequenos braços de menino. Ainda assim, não desistiu. Achou ali por perto um pequeno graveto com o qual conseguiu aproximar um pouco mais a moeda. Mas ainda era difícil alcançá-la. O menino tentou, tentou, esticou o braço, esticou mais, mais, mais até que... Conseguiu! Conseguiu enfim tocar a moeda, mas precisava ainda de um último esforço para, de fato, apanhá-la. E nesse último esforço, o chão cedeu e o menino caiu... Caiu em terra fofa e não se machucou. Devia estar há uns vinte metros abaixo da superfície. Quando olhou ao redor, viu uma porção de outros garotos de sua idade, agachados e apanhando, cada qual, uma moeda. Lá longe, uma imensa, enorme, gigantesca montanha de moedas...
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Marcio
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2:45 AM
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sexta-feira, novembro 17, 2006
A solução
- Acabou o fósforo, como vou fazer a comida? - Mamãe, o que temos para o almoço? - Peixe, meu filho. - A professora disse que peixe tem muito fósforo... O semblante da mãe se iluminou. Ela abriu o peixe e tirou de dentro alguns palitos. Agora sim, podia cozinhar....
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Marcio
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2:04 AM
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quinta-feira, novembro 09, 2006
A mãe

Patrícia Ferraz
Meg acabara de ter um bebê. Mas ela estava triste...
Conheceu muitos países da Europa, se divertiu bastante e depois de dez anos voltou para casa, cheia de idéias, roupas e cultura européia. Ela desfez as malas, foi até o congelador e tirou seu bebê lá de dentro. Sorriu para ele e pensou que agora sim, estava pronta...
Com um pequeno maçarico descongelou o seu bebê e assistiu, com ternura de mãe, os primeiros movimentos de seu rebento. Deu a ele de mamar, e como estava com fome o pobrezinho! Devorava o leite materno avidamente...
Escrito por
Marcio
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7:19 PM
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terça-feira, outubro 31, 2006
O grito
Uma mulher que levou um tiro perdido, em sua própria casa, abriu uma garrafa de vidro e gritou dentro dela, para não acordar o marido. Logo depois, tampou a garrafa novamente.
O casal, quando se mudou de casa, se esqueceu da garrafa de vidro.
Um novo casal veio morar na casa, e a mulher, ao ver a garrafa de vidro na cozinha, abriu a tampa. O marido, que estava na sala, correu para a cozinha, assustado, e perguntou:
- Porque você gritou?
- Não fui eu...
Escrito por
Marcio
às
11:53 PM
2
manifestação/manifestações
Tags: infantil, literatura, mini-conto





