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quinta-feira, julho 03, 2008

Um ato de amor

   Sentou-se à beira do cais. Não tomou posse do momento. Apenas deixou-se invadir pelo mar. Tomar posse é fardo pesado demais. Tomar posse é para jovens. Tomar posse é sanguinolento.
   Para quem já é oceano, sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que é e sempre será parte do oceano...
   Já não existe fora e dentro. Existe... a ave de fora é a ave de dentro. As águas de fora beijam as de dentro e a espuma é a fronteira...
   O barquinho desliza livre de qualquer culpa. Livre de qualquer tempestade. A rocha não é poderosa ou resistente, ela simplesmente é. Mas simplesmente ser é um não-ato que só a Deus cabe, mas Aquele que É também é rocha e está e toda parte e já não há dentro e fora, simplesmente há...
   O azul do oceano, a resistência da rocha, o vôo da gaivota, tudo isso é varredura de palavras bestas que dissolvem o ato de amor. Mas o mar varre a sujeira das palavras para as reticências...
   Sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que...

O bicho

   Os filhos foram terminantemente proibidos de descerem até o porão.
   -O que é que tem lá, mamãe?
   -Um bicho. E ele ataca se chegar perto!
   -E porque nós temos um bicho  em casa?
   -Porque não tem outro jeito, menino! Faz cada pergunta!-respondeu Cláudia, impacientemente, enquanto limpava a casa.
   Todo dia é a mesma coisa há oito anos. Às duas da madrugada Cláudia vai até o quartinho dos fundos, destranca o cadeado imenso da argola do alçapão e o abre com a mão direita, enquanto a esquerda empunha uma espingarda e uma sacola cheia de pães e restos de comida. Desce o lance, são vinte e seis degraus. Chegando lá embaixo apanha uma lanterna que sempre deixa no mesmo lugar, fora do alcance dele. Acende a lanterna e o procura, cuidadosamente, para evitar o bote. Quando o localiza, aproxima-se devagar e despeja os restos no chão.
   Depois que cuida da comida, troca a água da vasilha em uma torneira que o arquiteto da casa teve a feliz idéia de colocar no porão.
   De vez em quando Cláudia limpa a cela improvisada. Sempre com um braço só. O outro é para a espingarda.
   Os dois tem medo, um do outro. Mas o bicho tem mais, porque é a mulher que tem a espingarda e se dela precisar fazer uso ela o fará sem hesitar. Já atirou uma vez, pode muito bem atirar de novo. Daquela vez o bicho quase morreu. Perdeu muito sangue... foi um milagre ter sobrevivido.
   Ele não pode sair do porão. Nunca. Em hipótese alguma. Jamais! Mas a curiosidade das crianças as corrói terrivelmente e sabendo disso Cláudia sempre guarda a chave do alçapão no pescoço, presa por uma corrente. Não tira e momento algum. Sequer para tomar banho. O medo de que ele escape é terrível demais para se dar ao luxo.
   As crianças já se acostumaram em te-lo dentro de casa. Com os barulhos que faz à noite (é um bicho noturno), quando tenta escapar do porão, lançando-se contra o alçapão e o arranhando ferozmente ou quando grita de dor por ter rolado escada abaixo.
   Mas mesmo acostumados, nunca desistiram de lhe fazer uma visita. Um dia. Faziam planos. Mas tudo em que pensavam parecia impossível, porque a chave do alçapão estava no pescoço da mãe dia e noite. Certa vez, Marisa bem que tentou, na calada da noite, mas Cláudia acordou, para seu azar. A pobre menina levou uma surra da mãe e foi avisada de que se tentasse roubar a chave, novamente, seria lançada ao porão para servir de comida ao bicho.
   Mas o dia da caça chegou. As crianças puseram sonífero na comida da mãe. Antes de apagar, Cláudia ainda teve tempo de ver a correntinha sendo arrancada de seu pescoço violentamente, pelas mãos de Vinícius. Assustados e excitados ao mesmo tempo nem trocaram palavra, apenas correram ao quartinho e destrancaram o alçapão...
   Os filhos foram terminantemente proibidos de desceremm até o porão.
   -O que é que tem lá, papai?-perguntou Marisa, a caçula de onze anos.
   -Um bicho. E ele ataca se chegar perto!
   -E porque nós temos um bicho em casa?-perguntou Vinícius, o de treze.
   -Porque não tem outro jeito, menino! Faz cada pergunta!-respondeu Antônio, impacientemente, enquanto limpava a casa...
 
  
  

quarta-feira, julho 02, 2008

Vou para...

   Acordou no meio da noite sem sobressalto. Sentiu ternura pela mãe. Levantou-se e foi até a janela, olhar as estrelas. Distantes como sempre... Gostava de imaginá-las lugares gélidos, solitários e de luminosidade lunar. Sua mãe havia lhe contado que estrelas eram lugares cheios de pontas, tudo de cristal. Dizia que todo cristal daqui vem de lá, em forma de pó. Também lhe dizia sua adorada mãe que estrelas eram lugares tão distantes que até hoje só um homem esteve lá e que se saiba, nunca mais voltou.
   Tomou uma decisão. Tirou o pijama, lavou o rosto, vestiu-se rapidamente, foi até o quarto dos pais. No caminho parou para olhar, talvez pela última vez, os quadros religiosos que infestavam o casebre. pensou na derradeira Ceia. Um arrepio passou-lhe pela espinha. Pensou em como o Senhor deve ter se sentido ao entregar o pedaço de pão a Iscariotes.
   Entrou no quarto escuro e acordou o casal.
   -Que foi, meu filho?!- Perguntaram, assustados.
   -Mãe, pai, vou para...
   Mãe e pai olharam-se no escuro, consternados.
   -Então está mesmo decidido a ir para ...?
   -Sim, pai.
   -Está bem, meu filho. Vai com Deus. Tem a nossa bênção. Mas não sem antes tomar café da manhã com sua família. Vá acordar seus irmãos.
   Cinco, contando com ele. Dividiam o mesmo quarto. Acordaram assustados:
   - O que?! Então você vai mesmo para...?
   -Vou.
   -Pai e mãe já sabem?
   -Já. Vamos tomar café.
   Sentaram-se todos à quadrada mesa redonda enquanto mãe preparava o café.
   Os pais, calados. Os manos, empolgados.
   - E quando foi que mano resolveu ir para...?
   -Agorinha mesmo.
   A mesa foi posta. Faustosa. Em certos cantos da terra das Araras é assim. Faltura no conforto e fartura na comida.
   Alguns animais conversavam lá fora. Especialmente galos e bois. Porcos e galinhas são preguiçosos.
   Ovos, bacon, torrada, pão, queijo, leite, manteiga, refresco, etc. A conversa foi ficando animada. Até os pais, que à princípio estavam tristes com a notícia, ficaram felizes pelo filho desertor. Até acharam bom!
   -Sua mãe, seus manos mais eu vamos sentir uma saudade, mas o que importa é sua felicidade, filho.
   -Obrigado, pai. Também vou sentir saudade de vocês quando for para...
   Terminado o café, a luz do candeeiro foi apagada, os manos mais o pai voltaram pra cama e na sala... só ele e mãe. Sempre sobra pra mãe, ver o filho partir para...
   À soleira, beijou o filho com saudade. Aquele aperto no coração...
   -Vai com Deus, meu filho! Que Nossa Senhora do Amparo te acompanhe!
   -Amém, mãezinha.
   Foi-se, afinal. Com uma Bíblia debaixo do braço, uma muda de roupa na mochila, terço no bolso direito da calça puída e nenhum dinheiro.
   Escuro tudo. Apesar da saudade, muito feliz em estar indo para... poucos os que foram.
   Já quase fora das terras do patrão, olhou para trás, e mesmo sem ver, sabia que ela ainda estava lá. À soleira, parada. Coração forte que só mulher mãe!
   Entrou em casa. Fechou porta e janelas, estava muito frio. Sentou-se à mesa redonda quadrada e comeu, no escuro mesmo, o resto de ovo mexido com bacon. Tão bom mastigar silêncio e saudade de filho...
  

sexta-feira, maio 23, 2008

A redenção de Bernardino

   E lá se vão quarenta e cinco anos... de volta ao Condomínio das Pedras, vejo, com surpresa, que não mudou muita coisa. De configuração, quero dizer. As mesmas casas, o mesmo jardim, o mesmo espaço. Mais envelhecidos, é claro. No lugar das flores, folhas retorcidas e secas pelo chão. Mato crescido. A bica do nada. Ainda lá, mas toda enferrujada, provavelmente não funciona há anos. A bica do nada assim era chamada por nós porque simplesmente é uma instalação saída do chão, sem precedentes.
   Há quatro décadas e meia o Condomínio das Pedras era um belo conjunto de casas recém construídas, financiadas a preço popular. Meu pai comprou uma delas.
   Sou filho único. Meu trabalhava fora o dia todo e minha mãe deprimida cuidava da casa.
   A maioria das crianças do nosso grupo tinha histórias parecidas com a minha. Tristes. Éramos como irmãos. Só tínhamos uns aos outros. Os moradores do condomínio nos chamavam de "pedrinhas".
   Trinta e poucas crianças. Mas a panelinha (da qual eu fazia parte) era formada por apenas oito. Pedro, Joca, Lucas, Bernardino, Zé Maria, Oswaldo, Pandora e eu.
   Passávamos a maior parte do tempo juntos para não termos que ficar em casa. Zé era filho único, como eu. O pai dele era um alcoólatra e batia na família. Pedro tinha três irmãos mais velhos. Eram pedrinhas, também, mas não da panelinha. O pai dele abandonou a família assim que Pedro nasceu. A mãe quase perdeu a casa mas foi amparada por parentes. Joca era o que tinha a vida mais estável. Com pai e mãe em casa. Um dos  poucos pedrinhas que gozava de tal privilégio e da panelinha, o único. Era invejado por nós, por causa disso. Ele tinha também uma irmã mais velha, de treze anos. Sandra. Eu era apaixonado platonicamente por ela.
   Oswaldo vivia com a mãe, o padrasto e mais dois meio irmãos. Moleque arteiro. Apanhava quase que diariamente do padrasto. Lucas morava com os avós, que mal cuidavam dele. Principalmente o avô, entrevado em uma cadeira de rodas. Pandora era uma criança adorável. Doce. Vivia com uma tia que não ligava pra ela, quase nunca parava em casa e Pandora quase que vivia sozinha, ela já até tinha a chave da casa. essa tia às vezes sumia por dias. Às vezes deixava comida para Pandora, às vezes não. Quando não, a menina era acolhida pelos outros pais.
   Éramos crianças de sete a treze anos. Sei que não falei ainda de Bernardino, mas foi de propósito. Deixei a história dele por último, porque foi por causa dele que agora remonto à minha infância.
   Bernardino era o cruel da panelinha. Criança de maus instintos. Daqueles que torturam gato, beliscam crinaça pequena que não sabe falar, mata passarinho com estilingue, enfim, um sociopata mirim. Vingativo que ele só.
   Olhando agora, nem se diz que esse lugar já teve criança e algazarra. As paredes das casas enegreceram, o portão estava aberto quando cheguei e não vejo viva alma ao redor. Ando por entre as casas, ouço o silêncio de quarenta e cinco anos e esbarro em muitos fantasmas.
   A bica do nada era nossa grande atração. A água corria à vontada e voltávamos para nossas casas totalmente encharcados.
   Tentei abri-la. Como eu imaginava, nem uma gota. Minha mão ficou suja de ferrugem. No lugar de água, uma aranha.
   Nossa brincadeira favorita era subir na muretinha e pular, de preferência para derrubar o que estivesse embaixo, desprevinido. O que pulava caía nas costas do outro e ambos rolavam pela grama fofa do jardim, sem se sair com mais do que alguns arranhões. Sempre havia alguém que se distraía e outro que subia na muretinha sem ser visto... a vítima passava perto e ZÁS!
   Nem tudo é igual por aqui. reparo agora que há uma casinha que não havia no meu tempo. Pouco menor que as demais, como se fosse de um caseiro ou zelador. Fiquei curioso e me encaminhei para lá.
   Pandora era a única menina da panelinha. segundas intenções apenas por parte de pedro, Joca e Oswaldo. Para os outros, ela era simplesmente mais um de nós. Participava dos jogos e brincadeiras sem o menor embaraço por ser a única do sexo faminino.
   Lucas era o único negro do nosso grupo. Acho que  por isso que Bernardino não ia muito com a cara dele, já que essa "maçã podre" era meio racista. esse rivalidade entre os dois nunca ficou muito explícita, mas nem precisava. Sentíamos a tenção que havia entre ambos.
   Alguém, afinal, saiu da casa. Um homem baixo e manco. Usava uma capa de chuva cinza. Eu estava tão perdido no meu passado que só então notei que chuviscava. A estranha figura virou-se de perfil para mim e embora não me olhasse  diretamente, podia sentir a ferocidade dos olhos.
   Era apenas um boato, nada mais que um boato. Mas para mim era fato. Eu vi a menina que um dia se pôs de cócoras, tomou o cadáver de um passarinho entre as mãos e o reviveu. Pandora. A milagreira. O passarinho saiu voando de suas mãozinhas. Foi lindo... Bernardino também presenciou o milagre. Ficou vermelho de ódio. Ele havia atirado no passarinho com o estilingue e não contente, pisou no bichinho semi morto, acabando de matá-lo, estraçalhando-o. Pandora tomou-o entre as mãos, olhou para o céu e em questão de segundos... a ressureição.
   -Boa tarde, amigo.-Cumprimeitei, na tentativa de quebrar o gelo.
   -O senhor deseja alguma coisa?- Sua voz era pesada e rouca.
   -Não, eu... é que eu morei aqui quando era garoto e... vim fazer uma visita.-Eu sei, foi uma resposta estúpida, mas não me ocorreu mais nada.
   -O senhor deseja comprar uma casa?
   -Não.
   -Então porque o senhor veio até aqui?-Aquele sujeito estava começando a me irritar.
   -Quis recordar minha infância.
   Bernardino não aceitou perder para o Lucas na corrida dos cem metros. Ficou calado. Nós sabíamos que haveria retaliação. Só não esperávamos por uma tragédia. bernardino foi longe demais. Aconteceu enquanto brincávamos de amarelinha. Ninguém viu quando ele subiu na muretinha. Esperou pacientemente pelo momento certo. Quando Lucas passou em frente à bica do nada,Bernardino saltou. Foi tão répido que nem vimos como aconteceu. Apenas nos demos conta quando o Zé disse "Ele está morrendo". Foi quando vimos o sangue. Bernardino de pé, com sorriso de satisfação, limpando o suor da testa. Lucas agonizava. Fora atravessado pela bica quando Bernardino caiu por cima dele. Minha cabeça começou a girar.
   -Sou o zelador do condomínio- Disse secamente. Me senti afrontado.É a morada da minha infância, esse baixinho manco me trata secamente, o lugar está em franca decadência e ele tem a cara de pau de me dizer que é o zelador!
   -Está precisando de ajuda?-Perguntei o mais cinicamente que pude.
   Pandora tirou as sandálias e aproximou-se de Lucas, que não parava se se estrebuchar. Pediu que o tirássemos de cima da bica. Oswaldo e Joca se encarregaram disso enquanto Pedro e Zé seguravam Bernardino pelo braço.
   -Não preciso de ajuda.-Respondeu-me secamente. Tive ímpetos de voar no pescoço dele, com incentivo dos meus quase trinta centímetros a mais  de altura, mas me contive. Afinal, foram quarenta e cinco anos de ausência e aquele infeliz provavelmente esteve ali durante a maior parte desse tempo. Eu não tinha o direito de simplesmente quebrar a cara do zelador.
   Pandora não disse uma palavra. Pisou descalça na poça de sangue e colocou suas mãos sobre o buraco que havia na barriga dele. Todos ficamos mudos. Até Bernardino parou de gritar brados de ódio. Aos poucos, Lucas parou de estrebuchar. Pandora olhou para o alto, como da vez com o passarinho. Suas mãozinhas estavam empapadas. Bernardino começou a fazer comentários racistas, insinuando que Dorinha não deveria sujar sua mãos no sangue de um negro. Oswaldo e eu nos encarregamos que ele se calasse.
   Umas vinte crianças foram testemunhas do milagre. Mas só eu estou aqui, hoje aos 53 anos, contando essa história triste. Não sei por ande andarão aquelas crianças. Só eu voltei ao Condomínio das Pedras. Pelo menos foi o que me disse o zelador.
   A ferida que atravessou o estômago de Lucas tinha o tamanho de um limão e se fechou com a imposição das mãos de Pandora. Ela não chegou a ressuscitá-lo porque ele não chegou a morrer. Mas foi um milagre, sem dúvida. Ele morreria. Perdeu muito sangue e foi atravessado por uma bica.  Ainda assim, Lucas ficou mal por um tempo e ficou no hospital por dois dias, em observação.
   A chuva estava aumentando e aquela situação já estava me incomodando. O sujeito não me dava um fora, não me expulsava do condomínio nem me virava as costas, mas também não fazia nada além de ficar ali parado. resolvi perguntar:
   -O senhor gosta daqui?
   -Porque a pergunta?-falava comigo olhando para o vazio.
   -Sinceramente? Porque não parece gostar do lugar. Desculpa, não parece nem que é o zelador. Olha o lixo que está esse lugar.-Tarde demais percebi que havia exagerado. Talvez não. sabe o que é mais estranho? Desde que cheguei não vi ninguém saindo ou entrando das casas ou do condomínio...
   -Parece que é uma questão de honra para o senhor.
   -Bem, é que... uma parte da minha infância ficou aqui.
   -Uma parte da infância ou uma parte do senhor?
   -Acho que já vou embora.
   -Espere...
   Nós amávamos a milagreira. Foi cair nas arapucas de vingança do porco do Bernardino. Ele ficou com ódio da vez com o passarinho, mas passou. Foi só um bichinho que ele estraçalhou. Mas não ia ficar tão barato quando a garotinha de porcelana por quem alimentava uma paixão secreta resgatou da morte um menino negro. Seu orgulho fora mortalmente ferido. Bernardino... espero que você esteja vivo para carregar Pandora na consciência. Ela morreu segurando a mão de Lucas e a minha. Sorria... morreu feito carneirinha. Tranquila... bernardino pulou em cima dela e a enterrou na bica do nada. A milagreira salva o próximo, mas que salva a milagreira? Ela não estrebuchou. Fizemos uma roda em torno dela. Só nós, da panelinha, estávamos ali. Só nós sete presenciamos a morte da milagreira. Antes que ele se fosse, partimos para cima de Bernardino, dispostos a acabar com a raça dele, mas Pandora balbuciou pedindo que o deixassem em paz. Chorávamos copiosamente, sabendo que não haveria o que fazer. Morreu com o nome de Deus na boa. Morte linda, trágica.
   Não deu em nada. Os pais de Bernardino responderam em liberdade e a morte de Pandora foi considerada um acidente. Nós sete sabemos que não foi.
   Quando resolvo ir embora de vez, o zelador abaixa a capa cinza e finalmente se vira para mim, olhos nos olhos. Só então reparo que tem uma cicatriz enorme no rosto e um olho cego. Ele volta para casa, mancando...
   De repente, me dou conta. Meu Deus... esse homem se puniu de alguma maneira terrível para reparar um grande mal do passado. Olho para a enferrujada bica do nada. Ela teve a ver com essa punição, posso sentir.
   Ah, Bernardino... há tanto tempo em busca de uma redenção que nunca veio...
   Todos estão em seu lugar. O algoz já encontro seu inferno, as pedras do condomínio já tomaram seu rumo, a milagreira já é luz. E eu... perdido. Ando por entre esses quarenta e cinco anos e esbarro em muitas paredes enegrecidas. Eu sou o fantasma...
 
 
 
 
 

quinta-feira, abril 24, 2008

Viverei

Essa mãe precisa morrer. Olha o inferno que é a vida dessa mulher! O marido a chifra como quem troca de roupa. E ela sabe. Os cinco filhos de sete, oito, nove, dez e onze, respectivamente, não dão sossego. A família só faz dizer: "Nós bem que te avisamos!". Separação? Nem pensar. Ele prometeu que contaria para os filhos e para a família dela sobre seu passado maldito se ela tentasse a separação. Ele não quer ficar longe dos filhos. A bem da verdade, não quer ficar longe da mais novinha. Sofia. A garotinha do papai. Ah Sofia... a culpa é toda sua, Sofia... não fosse você e a vida da tua mãe não seria esse inferno, porque teu pai não faria a mínima questão dos teus quatro irmãos homens, e consequentemente, não faria esforço para impedir a separação. Para ele seria até um favor! Se livrar desse estorvo que é a tua mãe, mera parideira! Mas estão condenados um ao outro. Uns aos outros. Ela faz o favor de não entrar com o pedido de separação na justiça e ele faz o favor de não espalhar aos quatro ventos que se casou com uma prostituta. Que a resgatou das ruas e que quando o fez, ela estava acabada. Cheia de doenças e um bando de gente perigosa no encalço. Incluindo um cafetão que exigia ser ressarcido em $10.000, dívida essa que seria paga por aquele que seria pai de seus cinco. Já que ela não fica com ele por gratidão, por um mínimo de respeito que deveria ter pelo homem que a tirou das ruas, que seja, então, à base da chantagem! Ou fica quietinha ou ele espalha as fotos. Ah, se fossem só palavras... palavras o vento leva. Palavra se rebate com palavra! Helena de Tróia pode ser culpada num dia e inocente no outro, só com a palavra. Um discurso bem elaborado desmente até evidência! Mas além da palavra, ele tinha muitas fotos... e por mais que as tenha procurado, ela não as encontrou em casa! Aquele desgraçado as escondeu fora de casa!
O elo desse inferno é uma inocente e imaculada garotinha de sete anos. Sofia. Ei, Sofia! Psiu! Sofiaaaa... Você mesma, cândida filha da pílula... Só nasceu porque naquela pílula tinha farinha!. Pobre garotinha... Tão inocente e tão culpada... Seu pecado é ser a menina dos olhos do papai. Seu pecado é ter nascido. O propósito da tua vida é ser o elo desse inferno de casamento.
Segundo alguns trotes telefonicos, até família fora ele já tinha. Boatos esses bem prováveis. Uma vez até apareceu em casa com uma ninfeta chamada secretária.
Ela vai se matar, já decidiu isso há algum tempo e não a condeno. Olha o inferno que é a vida dessa mulher. O marido a chifra como quem ama. E ela sabe. Cada semana com uma, cada mês com cinco. Os cinco de onze, dez, nove, oito e sete são uns capetinhas. O de onze tem instintos maus e atormenta o gato até ele miar como se fosse uma fêmea no cio, o de dez não pára de correr e de falar, o de nove não pára de botar fogo nas coisas, o de oito não pára de perguntar "porque o céu é azul, o mar é redondo e a Terra é salgada" e a de sete é a cabeça da quadrilha. E sonsa, ainda por cima.
Saiu de uma vida de prostituta para ser parideira desse canalha. Precisa morrer. Merece morrer. Tem que morrer! E é agora! Dessa noite não passa.
"O que vai ser para o jantar, querida prostituta parideira?", "Frango para você e as crianças e salada com veneno concentrado para mim, querido chantagista canalha."
Esplêndido! Toalha branca com lindo bordado, panelas fumegantes, filhotes de banho tomado, comida maravilhosa, velas (vejam só), enfim, mesa maravilhosamente bem posta e ela! A bela dona-de-casa prostituta, com um sorriso na cara e um vestido vermelho ligeiramente provocante. Só esperando o maridão... Seria o suicídio perfeito. Seria a vingança perfeita. Ela só espera ver, de onde quer que esteja, a cara do marido, confuso, e como esse porco chantagista vai cuidar dos cinco porquinhos sem ela... Ah, já antegoza o momento final! O jantar perfeito e para ela, o último.
Chega, enfim, o chauvinista de terno e gravata. O porco beija a prostituta de vermelho hipocritamente e os dois, por alguns minutos, fingem que se amam. Ele desconfia de tamanha dedicação. Ela serve os pratos com um sorriso que não vai sair da cara até cair morta, se estrebuchando. O elo do inferno senta-se ao lado do porco enquanto a prostituta os serve.
- A salada é só pra mim - pronunciou, amavelmente- Estou de dieta - arrematou com um sorrisinho maroto.
O porco chegoou a sorrir e quase a amou novamente. Uma onda de ternura invadiu a todos. Invadiu os quatro anjos paridos, invadiu o elo do inferno, invadiu o porco, invadiu a prostituta.
Até oração teve, naquela casa de figuras kafkinianas. Enfim, tem início o jantar. O porco começa a devorar impiedosamente. Os quatro anjos parecem não tomar conhecimento de mais nada além deles mesmos e da comida em seus pratos. O elo do inferno estava triste. Pressentiu algo muito terrível.
A comida sendo devorada, muito a muito, e ela nem havia tocado na salada, ainda. Por fim tomou coragem e levou à boca a primeira garfada. Parou. A boca aberta, o garfo com a salada envenenada, no ar. Ah... todo mundo viveu, menos ela! Vida de puta não é vida! Vida de mulher desse porco também não é vida! A sonsinha é a filhinha do papai! Ganha docinho, presentinho e passeios caros. Os quatro anjos sempre fizeram o que bem entenderam. Incendiaram, gritaram, enfim, viveram! O porco teve tantas amantes quanto uma boa chantagem pode proporcionar! Só eu... só eu não vivi... e agora...
- Meus amores! Mudei de idéia. Vou comer só o frango e nada de salada! Ela é toda de vocês. Eu recomendo. Está uma delícia...

domingo, março 23, 2008

Santo André... Ah, Santo André...

        Silêncio sepulcral. Sepulcro. O Mestre foi sepultado. Dois mil anos depois, o jantar da família ainda guarda o respeito daquela noite. Daquela tarde na qual até a natureza esteve de luto. Ninguém fala, além dos talheres. As carrancas se contraem para disputar tristeza. A velha não tira a cara do prato e apesar do esforço de equilíbrio, derrama sopa.  O pai afunda, na sopa, pedaços grandes de pão endurecido e os devora. A mulher, é só uma sombra. Ai da criança que abrir a boca. Leva um tapa e ainda fica sem jantar.
        Uma lamparina pálida, quase finda. Penumbra. Única refeição do dia. Jejum. O Mestre foi assassinado. Não se fala, não se olha nos olhos, não se sorri e se sente culpa pela comida. E se culpa pela comida. E se come culpa. O Mestre está morto. Maldito... Que será de nós? Precisamos comer com culpa para sermos um pouco menos culpados.
        A carranca da velha exigia cuidado com a casa. Os romanos podem invadir a qualquer momento, com toda a espada, com toda a fúria. Já a carranca do pai não alcançava a tristeza da carranca da matriarca (missão difícil), mas ainda assim era temível. Terrível. Essa. Essa carranca dizia que as coisas poderiam ter sido diferentes se o Mestre tivesse fugido. Ora, porque não fugir?! Homem de pouca fé... A carranca da mãe era carranquinha, alguma Maria perdida no Calvário. Alguma assustada de olhar perdido, por aí. Alguma sem-voz assustada Maria perdida carranquinha por aí. A carranca da sogra censura a da nora, por tão pouco pesar... Como pode ser tão desrespeitosa? Acabaram de escorrer o Sangue do Senhor há dois mil anos e essa... Desavergonhada se veste de azul! Não és Maria piedosa! És Maria prostituta! Quer perturbar o Santo Sono sepulcral do Senhor? Está assassinado! Deixa Ele lá! Deixa Ele assim!
        Tudo na família cheirava a putrefação. O Mestre está morto, então a fé está morta.
        Ao final do santo jantar morto, a garotinha sorriu (blasfêmia), olhou para a carranca-avó direto nos olhos (sacrilégio) e disse em doçura de Santo André, o menino tão amado por Jesus:
        - Vovó! Porque estamos todos tristes? Jesus está vivo!

terça-feira, janeiro 01, 2008

Reflexo

   Com muita calma pintou as unhas de rosa, após um demorado banho de meia hora, onde fora gasto pelo menos meio frasco de shampoo.
   Pela primeira vez na vida reparou nas mãos  brancas e delgadas. Belas mãos. Após colocar seu vestido mais elegante (o vermelho), pegou a escova e penteou os longos cabelos castanhos, preenchendo o espaço quadrado do banheiro com nuvens de aroma adocicado.
   Mirou-se melancolicamente no espelho oval. O espelho... Moldura dourada, em arabescos e pó-de-ouro já gasto...
   Como era bonita...e o mais ironico é que só agora, após esse demorado banho de meia hora é que veio a reparar em como era tão bonita...
   Tanto tempo de sua vida disperdiçado com um homem que sequer tinha a amabilidade de lhe dar um beijo quando ela chegava em casa.Preferia a televisão.Tanto faz. Toda essa indiferença já não fazia diferença a anos. A vantagem do desgaste do casamento é que logo se acostuma com ele e é mais fácil "empurrar com a barriga" do que recomeçar. Recomeçar é renascer e renascer dói. Dói muito.
   Há tempo já não olhava para o espelho com tanta benevolencia... Há muito tempo não olhava para o espelho se surgisse alguém quando se mira... mas agora, pela primeira vez, em muitos infelizes anos, se permitiu olher. Se permitiu ser bonita. Se permitiu existir no espelho...
   Pintou os lábios de batom vermelho vagarosamente, como há muito não o fazia. Quando terminou, depositou calmamente, em cima da pia de mármore, o peque no tubo cilíndrico e levantou os olhos ao espelho para se ver novamente, agora com a boca vermelha. Linda.
   Durante os jantares, o grande silêncio vazio, totalmente encoberto pelo grande ruído vazio da televisão. Era melhor assim. Deixar a televisão cumprir com sua tarefa de anti-constrangimento.
   Casou-se aos quinze anos com um homem vinte anos mais velho. Ele era magro, sorridente, gentil e amável. Agora é gordo (excessivamente), carrancudo, rabugento e amargo. Estão na mesma casa mas não juntos. Não de verdade. As conversas tornaram-se enfadonhas e sem sentido. Então emudeceram. As palavras, pouco a pouco metamorfosearam-se em grunhidos inintelegíveis, até sumirem quase por completo, reservando-se apenas ao escencial. Era mais fácil assim. Era melhor assim. Deixar as palavras para a televisão...
   Abriu o estojo de maquiagem e , olhando para todas aquelas cores não pôde deixar de notar que pareciam guash... Um rosto a ser pintado, um quadro a ser eternizado...
   escolheu a sombra primeiro e cuidadosamente contornou os olhos. Depois foi a vez do lápis e o negro dos cílios foi realçado.
   Ao acordar e olhar para a criatura que dorme ao seu lado, não pode deixar de sentir um certo asco. Aquele homen gordo, roncando alto, se espalhando pela cama como se só ele existisse nela... talvez não fosse ele. Talvez aquele não fosse o homem bom com quem se casara há vinte anos. Talvez aquela criatura fosse apenas um rastro, assim como um vestígio do que fora um dia. Talvez...
   Chegou a vez do blush. A vermelhidão artificial das maçãs faciais.
   Já maquiada, olhou-se no espelho, uma vez mais. Com calma. Sem pressa de admirar-se. Como a vida é tristemente estranha... Há pelo menos dez anos já não fazia diferença abrir o estojo de maquiagem e no entanto agora, logo agora, fazia todo sentido...
    Tudo muito bem planejado. Desde o posicionamento das cadeiras até o delicioso jantar, com direito a salada de entrada e vários molhos exóticos... exceto por um detalhe. A sobremesa! Como pôde se esquecer logo da sobremesa? Que descuido... Saiu às pressas até o mercado mais próximo e comprou um pote de sorvete de mamão com creme. o preferido dele.
    Assim que abriu a porta de casa, o sorriso se desfez, lentamente... A luz estava acesa, as velas apagadas e ele à mesa, comendo... tornou-se um homem tão bossal com os anos que sequer se deu conta do que acabara de provocar. Apenas sorriu estupidamente e disse, com a boca cheia: -O jantar está ótimo, querida! Come um pouquinho também! Que foi isso? Uma surpresa? Eu adorei. Senta aí. Não fique aíparada.
           -você... apagou as velas... - Conseguiu ainda balbucias.
          -Ah, desculpa, amor... é que eu não gosto de comer no escuro, mas a comida está ótima! Que aconteceu? estava inspirada hoje?- Disse, acreditando ser isso um elogio.
         -Não. É que, não sei se você se lembra, mas hoje é nosso aniversário de casamento. Você também tirou a rosa...
         -Descculpa, querida, é que estava me dando uma alergia desgraçada, comecei a espirrar feito louco. Mas não se preocupe que eu deixei dentro do vaso com água.
    Guardou o estojo, o batom e a escova, tudo calculadamente. Olhou-se uma vez mais no espelho e aspirou o cheiro adocicado de shampoo, vindo dos cabelos ainda molhados. Esse momento, assim como aquele jantar frustrado fora cuidadosamente planejado. Mais. No jantar faltou a sobremesa mas para esse momento não faltou absolutamente nada. Até mesmo do toque final se lembrara. A rosa vermelha nos cabelos... o toque de elegânicia, que finalmente a elevou da condição de mera mulher à deusa potentosa...
   A sensação que dá ao acordar ao lado dele é a mesma de  dividir a cama com um porco. Um homem que fede e não se importa com isso. Um homem que se contenta com uma vida absolutamente medíocre, que se contenta com um salário vitalácio e uma vida na poltrona. Invalidez obviamente forjada.. Ganhou na justiça essa barganha e agora fica em casa dia e noite, prostrado feito uma poia, de cara pra televisão, bebendo cerveja.
   Abriu a torneira da banheira  e deixou que a água a enchesse até quase a borad. Antes de entrar, apanhou a gilete no armário. Porque só agora a vida fazia sentido?O banho demorado, a maquiagem, a rosa no cabelo... esse momento não poderia ter sido evitado se aquele jantar não tivesse sido um fracasso?
   Olhou laconicamente para os pulsos brancos e viu, nitidamente, as veias e antes de entrar na banheira com o vestido vermelho, o rosto maquiado, a rosa no cabelo e a gilete na mão, olhou-se uma última vez no espelho de moldura oval, ornado em arabescos e pó-de-ouro já gasto...
Permitiu-se ao menos uma vez se vingar do marido pensando nele como um porco. Permitiu-se ser bela e até mesmo altiva. Permitiu-se ser deusa. Permitiu-se existir no espelho...

quarta-feira, dezembro 12, 2007

E se

E se as luzes se apagarem?
E se acordarmos todos baratas?

E se formos condenados pelo pai?

E se o juiz bater o martelo?
E se o sol nascer?

E se a Terra girar?
E se ninguém
mais morrer?
Nessa calçada cada vez mais estreita

Fica mais difícil se manter

Sem ser atropelado.
E se a pedra cair pra cima...

O piano virar flauta

A água virar sangue tinto...

A vida secar...

O mar secar...

E o sertão molhar?
Nesse sol de 50º está cada vez mais difícil manter-se no limite...

E se a música calar...

A arte se decompor...

E a pilha envenenar a Terra?
Cuidado...
E se as janelas não se abrirem...

As plantas saírem andando...

E a noite chegar?
E se eles chegarm...

E se nós resistirmos...

E se nada disso acontecer?
Agora é tarde...
E se eu vacilar...

E se tudo for verdade...

Mentira

E aí?
Nessa corda bamba, raros são os equilibrados. Caem todos, um a um...
E se eu imaginar...

E se eu voar...
E se eu esperar...

E se acontecer?

E se...

sábado, dezembro 08, 2007

Baseado em fatos (sur) reais, Largo da Carioca: A Arca

O Largo da carioca é mais ou menos assim: um pandemonio desgraçado, enlouquecedor, infernal, onde se anda em meio a um caldo sui generis de figuras quase mitológicas. Todos muito apressados e todos são muitos e muitos são os todos e é tudo isso ao mesmo tempo. Crea-me (como diriam os castelhanos), acredite, realize! De um lado, um cantor brega, cabeludo (adoram fazer tipo...), que produz e vende seus próprios cd's. Vanilson, Vandernelson, Vanderleison, um desses nomezinhos artísticos assim, biito. Ele liga as caixas de som a um gerador e monta uma mesinha para os cd's.

Um pouco mais adiante, a guarita da polícia militar. Em outro canto, o mendigo (não pode faltar...). Há também o espirituoso charlatão piadista que convence os igno... os ignóbeis de que uma boneca (sem roupa, sem braço e sem dente) irá se levantar e andar até um chapéu que ele coloca a cinco metros da dita cuja. E enquanto ela não se levanta e caminha por vontade própria até o chapéu, ele fica contando piadinhas tão engraçadas que me emocionam. E a emoção que sinto é tão grande que chego a andar mais rápido e o mais longe possível quando as ouço.

Em outro canto, há o Jimmy Hendrix perrapado, tocando guitarra, dedilhando solos pra lá de manjados... Além disso é cabeludo também (adoram fazer tipo...). Em outro canto, uma banca que, além de jornais e revistas, vende dvd's de filmes pornô a preço popular e anunciam em um microfone! (é, eles anunciam...)
Em meio a esse zoológico mitológico, centenas, milhares de corpos sem vida, caminhando sem rumo, rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho. Lá, esses pobres zumbis serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas uma caneta folheada a ouro, como presente de aposentadoria.
No meio de tudo isso, é claro (é circo completo), o maluco da Bíblia, gritando e pregando em voz alta para quem quiser ouvir. Mas o que esse pobre coitado não sabe é que ele é só um fanático com síndrome de profeta e as pessoas para quem ele prega não passam de zumbis. Ora, zumbis não escutam, zumbis não pensam, zumbis não tem vontade própria. Eles simplesmente caminham sem rumo, rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho, onde serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas uma caneta folheada a ouro, como presente de aposentadoria.
Mais uma substância que enriquece esse caldo espetacular são os índios peruanos, vestidos com os trajes próprios de sua tribo, tocando em enormes zampônias ornadas de penas coloridas, de aves provavelmente exóticas. Seus próprios cocares que vão até o chão são confeccionados com essas penas. O mais engraçado é que tocam típica música indígena peruana com playback eletrônico. Isso é que eu chamo de pós-modernismo...
Nessa arca da carioca, quase sempre faz um calor escaldante. O cheiro é uma mistura de urina, suor, gasolina, fumaça de cigarro e fedentina de pastelaria chinesa.
Há os vendedores ambulantes, e o que vendem são coisas que vão do útil ao engraçado, passando pelo bizarro. Chumbinho para matar rato, sandálias, protetor solar, óculos escuros falsificados, cd's, dvd's, roupas e sapatos piratas, queijo branco e tijolos de goiabada de proveniência e validade desconhecidos e pecinhas metálicas minúsculas que dão choque quando devidamente acionadas. A típica piadinha do Coringa...
Zumbis aos milhares, camelôs, arranha-céus, profeta maluco, cantor brega, índio peruano, guitarrista perrapado, piadista charlatão, tudo em movimento frenético, ao mesmo tempo, sem parar, milhões de eventos em um átimo de tempo... Um turbilhão enfurecido que engole e mastiga sem piedade quem quer que esteja por perto, seja padre, camelô, índio peruano, Jimmy Hendrix perrapado, Vanderney (nilson, nelson, nulson...) brega ou um zumbi caminhando sem rumo rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho, onde serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas zumbis uma caneta folheada a ouro como presente de aposentadoria...

quinta-feira, outubro 11, 2007

Olhos

Vejo você
E como vejo!


Vejo seus olhos!
Eles me falam
Eles me gritam!

Seus olhos me chamam
Vejo neles tanta coisa!


Vejo mansidão plácida
Misteriosa
Noite sem fim...


Vejo lua vermelha
Uma lua muito cheia
E muito vermelha...


Vejo seus olhos
Eles me vêem
Me engolem!


Vejo neles
Praias
Florestas
Casas
Quadros
Bibliotecas
Amor
Paz
Tristeza
Tanta coisa!

Seus olhos urgem
Seus olhos louvam
Seus olhos clamam!


Vejo neles
Vontade
Retração
Expansão
Morangueira
Luzes de mil anos
Séculos de espera
Sonhos perdidos
Mar, luar

Rosto embaçado

Enfim!
Vejo e Enfim nos seus olhos sem fim!


Me vejo
Te vejo
Vejo!


Beijos apaixonados
Na chama do teu olhar
E nós

Sendo consumidos

Para virar um só...


Vejo teus olhos
Te vejo lá dentro
Te abraço
Te beijo desesperadamente...

sábado, julho 21, 2007

O encontro

Foi como uma daquelas coisas que acontecem sem a gente saber, e fica meio atordoado depois... Porque de alguma forma, era para acontecer e sabe-se disso depois que acontece. O improvável. O quase impossível. E no entanto, foi revestido de extrema casualidade, banalidade e possibilidade, que se deu aquele encontro.

Eu tinha oito ou nove anos, não me lembro bem, e estava de mãos dadas com a minha mãe numa loja de roupas. Um rapaz veio se aproximando em sentido contrário ao nosso, sem intenção qualquer, apenas andando e olhando distraído o interminável cardápio de roupas, como minha mãe e eu.

Acontece que se esbarraram. Literalmente. E o que, em circunstâncias normais, seria desagradável e o caso de desculpas mútuas, foi, ao contrário, (como descrever tal coisa?) um átimo do despertar, o mágico, o metafísico, e de uma beleza mais do que rara, única, e... reveladora. Naquele infinitesimal lapso de tempo, algo lhes foi revelado. Ao rapaz e à minha mãe. Jamais teriam ou terão a chance de saber o quê. Mas foi um momento lindo, daqueles que não se explicam, e eu, como testemunha, a tudo assisti, intrigado e ligeramente feliz...

Os dois continuaram se olhando, ainda por algum tempo, virando as cabeças para trás, e sorrindo um para o outro...

Momentos depois, quando perguntei à minha mãe o que se passara, ela apenas me respondeu o que eu já sabia, que havia sido um esbarrão muito especial, ela não sabia porquê. E lamentava, mansamente, por saber que um encontro como aquele jamais se repetiria...

quarta-feira, julho 18, 2007

Em lugar algum


Vago perdido

Entre folhas e sonhos
Letras e rascunhos
Ir e vir sem fim...


Vago sem sentido
Porque vida
Não carece de sentido
Não carece de meio e fim...

Vago por todo lugar
Em lugar agum
E esse é o meu lugar
Sempre será...

Um dia sonhei com casa
Mas casa não é meu destino
É querer demais
De um errante como eu...

Vago por cronicas
Contos
Poesia
Perdição e mais perdição...

Errante no caminho das letras
Única estrada possível
Feita de dunas
Que vão...

Vou cego por aqui
Não tem volta
Só em lugares há retorno
Mas estou em lugar algum...

Sonho com repouso...
Redenção que nunca virá
Erro por caminhos de vento
Todo lugar

Viagem sem fim
Vago por todo lugar
E na verdade não sou em algum lugar
Mas em lugar algum...

terça-feira, julho 17, 2007

Noite de Natal


Tudo era tão festivo. Na grande sala da última casa da rua Padaria ( e embora tivesse esse nome, não havia padaria alguma num raio de 100m) havia um belo sofá bege, com lugar para cinco pessoas. Havia também uma belíssima cristaleira, repleta de jogos de porcelana e cristal. Uma estante com livros os mais diversos, literatura brasileira, inglesa, alemã, livros de psicologia, direito, política etc. Uma televisão enorme de muitas polegadas, aparelho de dvd.


Havia também um belíssimo lustre, vindo de Londres, e é claro, um tapete persa. E como era Natal, havia também um grande pinheiro, plenamente ornamentado com grandes bolas de vidro - sim, de vidro - coloridas, miniaturas de presentes, de botas e do bom velhinho. E um belíssimo pisca-pisca, de cinco cores e que pisca sincronizado com a música que toca. E é claro, presentes ao pé da árvore. Várias caixas coloridas.


Na parede, um grande quadro com uma bela pintura de cores frias, retratando a noite de alguma capital fria. Londres, talvez.


Uma bela mulher acabara de sair do banheiro, enxugando os cabelos e exalando cheiro de shampoo por toda a casa.


Na cozinha, um homem placidamente cortava fatias de peru, distribuía ameixas e fios de ovos.


A mulher foi até a varanda e observou lá fora. O marido, trazendo a bandeja com o peru para a mesa da sala, quando a viu, chamou:


- Aurora querida, que está fazendo aí?


- Só olhando...


Ele depositou a bandeja na mesa, calmamente, e foi até ela. Suavemente lhe tocou nos ombros, por trás.


- Querida, não quer me ajudar com os pratos? Já são quase dez horas, a Sandra vai chegar a qualquer momento com o Dário e as crianças. Tia Augusta também deve estar chegando...


- Ah, nem me fale da sua tia, ela é tão desagradável... Não sei porque você tem sempre que convidá-la para nossa ceia de Natal!

- Aurora, já conversamos sobre isso. Tia Augusta não tem mais ninguém, quero que ela passe o natal conosco.

- Justamente porque ela não tem ninguém além de você é que não devia pisar nas pessoas, e ela sempre faz isso.

- Ah, também não é para tanto, querida. Não vamos brigar por uma bobagem dessas, em plena noite de natal, está bem? - dizendo isso, beijou-lhe na testa. Aurora sorriu tristemente, mas concordou.

A campainha tocou e ela foi abrir a porta enquanto Carlos levava as coisas para a mesa.


Era tia Augusta, uma senhora de mais de setenta, gorda, baixa, de cabelo curto, pintado de um ruivo cafona.Tinha em uma das mãos uma bolsa com três ou quatro presentes. Na outra, uma garrafa de vinho português.


- Boa noite, Aurora. - disse secamente, com uma voz grave e rouca.


- Boa noite, D. Augusta. Vamos entrando.


- Está bem. Ponha esta garrafa na geladeira!... Onde está o Carlos?


- Acho que foi ao banheiro...


- Puxa, que coincidência! - disse, sorrindo sarcasticamente. - Foi só eu chegar para ele sair da sala. Será que eu incomodo tanto assim?


- Ah, D. Augusta, por favor, está bem? Carlos, sua tia chegou! Carlos... - e foi saindo da sala, com a frágil desculpa de ter que ir chamar o marido, deixando tia Augusta na sala, indignada. Carlos saiu do banheiro e se encontrou com a esposa no corredor, gesticulando raivosamente e sussurrando:


- Vai lá, falar com a sua tia! Ela já chegou indignada por você não estar na sala para recebê-la!


Carlos respondeu, baixinho:


- Mas será que nem ao banheiro eu posso ir?


- Diga isso a ela!


- Vamos lá, falar com ela.


- Vá você. Vou ficar lendo, no quarto.


- Aurora, por favor, não começa...


- Quem começou foi ela...


Ouviu-se a voz rouca e alta, vinda da sala:


- Carlos! Carlos, não vem falar com a sua tia? Como pode? Carlos!


- Já vou, tia... Pode esperar um minuto?


Carlos foi fazer sala enquanto Aurora enfiava-se no quarto, furiosa.


- Olá, tia. Tudo bom?


- Tudo bom, Carlos. A sua mulher que parece não estar lá muito bem, não é mesmo? Saiu daqui aborrecida, me deixou sozinha aqui na sala!


- Ela não anda muito bem, tia... E a senhora bem que podia colaborar, não?


- Mas o que foi que eu fiz? Só disse que achei engraçado eu chegar e você correr para o banheiro...


- Eu não corri para o banheiro, apenas me deu vontade de ir ao banheiro, será que nem isso eu posso?! Estou trabalhando na cozinha sem parar desde quatro horas da tarde, preparando a ceia!


- Está bem, não precisa ficar assim nervoso! Olha, eu trouxe uma garrafa de vinho e pedi que Aurora pusesse na geladeira para esfriar. Traz uma taça para mim, sim? Ele está simplesmente di-vi-no!


Enquanto isso, no quarto, Aurora ligava para a irmã.


- Alô, Sandra? Oi, querida, tudo bem? Tudo, comigo está... Bom, nem tudo. A tia do Carlos está aqui. Aquela velha insuportável... Já, já chegou, menina! Ela é sempre a primeira a chegar! E a última a sair, impressionante!... Ai, Sandra, eu estou sozinha aqui, você vai demorar a chegar? Jura? Cinco minutos? - Aurora abriu um sorriso de orelha a orelha com a boa notícia. - Salvadora da pátria! Beijos! Tchau!


Na sala, D. Augusta, pachorrentamente sentada no sofá, tomando vinho, de vez em quando dirigia a palavra ao sobrinho, entre enormes intervalos de silêncio pesaroso.


- Quando é que você vai me dar um sobrinho, Carlos? - disse, maliciosamente. Carlos suspirou baixinho e arqueou ligeiramente os ombros, já prevendo a ladainha de sempre.


- Não sei, tia. Mas não vai demorar, prometo. - disse sorrindo, numa tentativa frustrada de dar o assunto por encerrado.


- Pra logo? Você vem dizendo isso há três anos!


- A senhora está cansada de saber que Aurora ainda não está pronta.


- Olha, Carlos, eu não tenho nada com a sua vida, mas a sua mulher está te enrolando...


- Vamos falar de outra coisa, titia?! - disse isso em tom já visivelmente aborrecido.


A tia fez uma cara feia e não disse mais nada.


A campainha soou e Aurora logo saiu do quarto toda contente para receber a irmã. D. Augusta, ao vê-la passar pela sala, olhou-a de alto a baixo, sorriu com sarcasmo, e disse:


- Apareceu, Margarida! Que milagre!


Aurora ignorou solenemente o comentário espirituoso e foi até a porta.


A chegada de Sandra, Dário e as crianças aliviou um pouco o coração de Aurora. Quem fez cara feia para os novos convidados foi D. Augusta que, não contente em implicar com a mulher do sobrinho, atacava também a família dela.

A ceia transcorreu lentamente, em silêncio abafado, perturbador...


Vez ou outra alguém fazia algum comentário insosso sobre o tempo ou qualquer outra trivialidade do gênero, apenas para quebrar o silêncio.


O clima era pesado, as pessoas ouviam as respirações umas das outras, tamanho era o silêncio. Apenas se concentravam na comida, com a cara enterrada no prato. O tilintar dos talheres era frenético e foi crescendo, crescendo, a ponto de se tornar um verdadeiro caos sinfônico metálico, onde garfos e facas subia e desciam em ritmo alucinado, transportando a comida do prato para as bocas, subindo cheios, descendo vazios.


Embora o silêncio pairasse soberbo sobre aquelas cabeças, melhor seria continuar nesse estado do que ser quebrado pela pessoa menos indicada para fazê-lo: D. Augusta. Sempre ela... Tem sempre que dizer algo desgradável, e à mesa, com todos comendo... Em pleno natal...


- Pois é, Sandra, você sabe que logo teremos um menininho correndo por aí, sabia?


Todos se olharam, constrangidos. Sandra ingenuamente sorriu para a irmã e perguntou:

- Aurora, você está grávida?


D. Augusta logo respondeu:


- Ainda não, mas o meu sobrinho me prometeu um menininho para esse ano próximo, não é mesmo, Carlos? - disse, sorrindo. Ninguém ousou dizer nada.


A comida era farta, talvez para compensar a falta de conversa. Paulatinamente, o peru, as castanhas, rabanadas, uvas, o bacalhau com batatas, o pudim, o sorvete eram devorados.


Quando, enfim, a meia-noite chegou, todos se abraçaram hipocritamente e trocaram presentes. E, para não ficar chato, para não pegar mal, as pessoas não foram logo embora, para depois não se dizer, pelas costas, que foram lá apenas para comer. Embora o caso de D. Augusta fosse diferente: ela não ia embora porque era inconveniente mesmo. E sendo tão inconveniente, continuou falando sobre assuntos desagradáveis ao sobrinho e sua esposa.


Até que, irritado com tanta provocação, Carlos deu um berro, fazendo a tia se calar e ficar olhando para ele, indignada:


- Chega!!! - silêncio breve - Minha esposa e eu não queremos falar sobre isso, e se a senhora insistir, vou pedir que vá embora e não volte!!!


Pela primeira vez naquela noite (quicá na vida), D. Augusta teve bom senso e foi embora, sem se despedir ninguém, sem dizer palavra.


Depois disso, o ambiente ficou, obviamente, mais respirável. Mas Aurora estava triste. Ela foi para a varanda se sentou no chão, pensativa. Estava como o olhar longe, perdido... Carlos se aproximou da esposa, cautelosamente, e pôde ver que ela chorava... A emoção também lhe veio ao peito, mas se conteve. Aurora murmurou:


- Não me sinto preparada para ter outro filho, Carlos...


- Eu sei, querida...


- Eu ainda sinto muito a falta dela...


- Eu também...

- Até hoje não compreendo porque ela fez aquilo...


Carlos não soube o que responder.


Havia três anos apenas, desde aquele dia fatídico...



Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender(...)

(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)




domingo, janeiro 28, 2007

Maçã-do-amor

Começou assim, inocentemente, como duas mãos que se vêem, como dois olhares que se tocam...

Tudo assim, por acaso, invertido... A roda gira e lá em cima tudo se perde confusamente... Até o tempo se perde, e da ordem vem o caos. Em meio ao caos os olhares crescem e são apenas olhares, essência, perdição da matéria, recantos lúdicos, onde jamais o amor descansa e ele não quer descansar! Ele não quer!

A roda pára. Lá em cima. E o amor gira. Gigante!

O amor é maçã, assim mesmo, servido em palito, camada fina de cristal doce que logo se desfaz na saliva e logo vem a parte sólida, que é devorada com avidez! Ainda a esperança do fino cristal doce, a saudade...

Lá em cima venta e é tudo do que o amor precisa... O sopro da brisa nas labaredas da maçã!
Vermelha... Efêmera... Eterna...

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Os óculos


Patrícia Ferraz



Juliana deixou seus óculos cairem no chão, mas eles não se quebraram totalmente. Apenas rachou em cinco partes, e então Juliana passou a ver tudo quintuplicado. Cinco papais, cinco mamães, cinco irmãos menores, cinco sofás, cinco janelas, cinco professores de matemática, etc. Ela acabou se acostumando com essa vida quintuplicada.

Um dia, quando acordou e pôs os óculos, estranhou. Estava vendo só um de cada coisa. Uma mamãe, um papai, um irmão menor, um sofá, um professor de matemática.
Quando voltou da escola, já em casa, vendo uma mamãe, um papai, e um irmão menor, tirou os óculos... E viu então, cinco mamães, cinco papais e cinco irmãos menores...

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Fonte de doces


Patrícia Ferraz


Lang Leng Lung era um chinês que pesava 210 quilos. Ele comia muito doce: estava sempre com uma bala, pirulito, qualquer outra guloseima na boca ou na bolsa. Sempre que passava por uma confeitaria, comprava uma bomba de chocolate. Quando passava pela loja de doces, comprava doces e balas, e quando passava pela farmácia... Bem, sempre perguntava se finalmente eles haviam se convencido de que seria um bom negócio vender, além de remédios,
balas de caramelo.

Um dia, Lang Leng Lung levou um tiro perdido na barriga. Morreu, e ficou com um baita rombo. As crianças vieram até o corpo de Lang e, estando a barriga dele aberta, a criançada se esbaldou de doce...

segunda-feira, novembro 27, 2006

O vale das moedas


Patrícia Ferraz


Um garoto de dez anos deixou sua moeda cair em um bueiro, enquanto passeava pela rua com a mãe. Ele ficou muito desapontado e quis recuperá-la. Agachou-se para tentar apanhá-la pela tampa do bueiro, mas foi impossível. A moeda estava em um canto de difícil acesso para seus pequenos braços de menino. Ainda assim, não desistiu.
Achou ali por perto um pequeno graveto com o qual conseguiu aproximar um pouco mais a moeda. Mas ainda era difícil alcançá-la. O menino tentou, tentou, esticou o braço, esticou mais, mais, mais até que... Conseguiu!
Conseguiu enfim tocar a moeda, mas precisava ainda de um último esforço para, de fato, apanhá-la. E nesse último esforço, o chão cedeu e o menino caiu...
Caiu em terra fofa e não se machucou. Devia estar há uns vinte metros abaixo da superfície.
Quando olhou ao redor, viu uma porção de outros garotos de sua idade, agachados e apanhando, cada qual, uma moeda.
Lá longe, uma imensa, enorme, gigantesca montanha de moedas...

sexta-feira, novembro 17, 2006

A solução


Patrícia Ferraz


- Acabou o fósforo, como vou fazer a comida?
- Mamãe, o que temos para o almoço?
- Peixe, meu filho.
- A professora disse que peixe tem muito fósforo...
O semblante da mãe se iluminou. Ela abriu o peixe e tirou de dentro alguns palitos. Agora sim, podia cozinhar....

quinta-feira, novembro 09, 2006

A mãe


Patrícia Ferraz




Meg acabara de ter um bebê. Mas ela estava triste...

Amava seu bebê e queria tê-lo, mas não agora! Então, quando chegou em casa, teve uma grande idéia: Pôs seu bebê no congelador e viajou para a Rússia.
Conheceu muitos países da Europa, se divertiu bastante e depois de dez anos voltou para casa, cheia de idéias, roupas e cultura européia. Ela desfez as malas, foi até o congelador e tirou seu bebê lá de dentro. Sorriu para ele e pensou que agora sim, estava pronta...
Com um pequeno maçarico descongelou o seu bebê e assistiu, com ternura de mãe, os primeiros movimentos de seu rebento. Deu a ele de mamar, e como estava com fome o pobrezinho! Devorava o leite materno avidamente...

terça-feira, outubro 31, 2006

O grito


Patrícia Ferraz


Uma mulher que levou um tiro perdido, em sua própria casa, abriu uma garrafa de vidro e gritou dentro dela, para não acordar o marido. Logo depois, tampou a garrafa novamente.

O casal, quando se mudou de casa, se esqueceu da garrafa de vidro.

Um novo casal veio morar na casa, e a mulher, ao ver a garrafa de vidro na cozinha, abriu a tampa. O marido, que estava na sala, correu para a cozinha, assustado, e perguntou:

- Porque você gritou?

- Não fui eu...