Foi como uma daquelas coisas que acontecem sem a gente saber, e fica meio atordoado depois... Porque de alguma forma, era para acontecer e sabe-se disso depois que acontece. O improvável. O quase impossível. E no entanto, foi revestido de extrema casualidade, banalidade e possibilidade, que se deu aquele encontro.
Eu tinha oito ou nove anos, não me lembro bem, e estava de mãos dadas com a minha mãe numa loja de roupas. Um rapaz veio se aproximando em sentido contrário ao nosso, sem intenção qualquer, apenas andando e olhando distraído o interminável cardápio de roupas, como minha mãe e eu.
Acontece que se esbarraram. Literalmente. E o que, em circunstâncias normais, seria desagradável e o caso de desculpas mútuas, foi, ao contrário, (como descrever tal coisa?) um átimo do despertar, o mágico, o metafísico, e de uma beleza mais do que rara, única, e... reveladora. Naquele infinitesimal lapso de tempo, algo lhes foi revelado. Ao rapaz e à minha mãe. Jamais teriam ou terão a chance de saber o quê. Mas foi um momento lindo, daqueles que não se explicam, e eu, como testemunha, a tudo assisti, intrigado e ligeramente feliz...
Os dois continuaram se olhando, ainda por algum tempo, virando as cabeças para trás, e sorrindo um para o outro...
Momentos depois, quando perguntei à minha mãe o que se passara, ela apenas me respondeu o que eu já sabia, que havia sido um esbarrão muito especial, ela não sabia porquê. E lamentava, mansamente, por saber que um encontro como aquele jamais se repetiria...
