Hoje morreu um turista francês de vinte e quatro anos, após cair do alto dos Arcos da Lapa. Uma queda entre quinze a vinte metros.
Não há como dizer que foi meramente um acidente porque não foi. Há vários culpados sim, nessa tragédia. Em primeiro lugar, o próprio turista é culpado por se permitir andar de pé no estribo. Não é preciso nenhuma placa nem orientação alguma para saber que é prática extremamente perigoso andar de pé no estribo. O bom senso grita. A administração do bonde também se omite e se omitiu por muitos anos com relação a essa perigosa prática, extremamente desaconselhável. Deveria ser terminantemente proibido. Deveria haver uma placa de proibição e o próprio motorneiro deveria chamar a atenção de quem fizesse tal coisa e se recusar a seguir viagem, ou melhor dizendo, ele deveria receber instruções cabais de não prosseguir viagem caso alguém se pendurasse no estribo. Há vários culpados nessa hstória, sim.
Mas o que mais me chocou nessa tragédia não foi a morte em si, do turista francês. O que mais me chocou foi um detalhe que aconteceu após a queda dele do alto dos Arcos...
Enquanto agonizava (que horror, ele ainda sobreviveu à queda...) menores de rua aproveitaram e lhe roubaram câmera fotográfica e outros pertences... isso foi o que mais me chocou... que desgraça humana, meu Deus... que condição de miséria o Ser Humano vive... esses Seres Humanos (se é que se pode rotulá-los assim) perderam, em sua vivência cruel nas ruas, toda sensibilidade, se é que algum dia tiveram alguma. Mas pensando bem sobre esse caso, não posso acreditar que a vivência nas ruas, por si só, seja justificativa pela perda de humanidade das pessoas. Certamente esses pivetes seriam pessoas ruins mesmo que não fossem pivetes.
Eu me arrepio ao pensar na cena. Me desculpe, mas me sinto compelido a descreve-la, segundo minha imaginação. Imagine a queda de um corpo a vinte metros de altura, do alto dos Arcos da Lapa. Uma cena terrível, chocante. Imagine um Ser Humano agonizante, a dor que estava sentindo com o corpo todo arrebentado por dentro, cheio de hemorragias internas, botando sangue pela boca, talvez uma enorme poça de sangue saindo do crânio partido. Ainda vivo, agonizando, se engasgando com saliva e sangue, com os olhos revirados, duas "pessoas" ruins, doentes, desalmadas, se aproximam de um Ser Humano em agonia de morte e tudo que querem, tudo com que se preocupam é em levar vantagem da situação trágica, esses porcos em forma de gente. Levam a máquina fotográfica e outros pertences do turista, no lugar de pensar em chamar socorro, no lugar de tentar ajudar de alguma forma.
A condição Humana é uma condição de miséria, de imperfeição, de mesquinharia e de covardia... contudo, ainda somos capazes, raramente, de gestos grandiosos. E mesmo em tais condições degradantes, raramente o Ser Humano chega a esse ponto de covardia e total agoísmo e crueldade como chegaram esses porcos imundos que roubaram esse rapaz enquanto agonizava.
Quando penso que o "não se importar" com o outro já atingiu o seu ápice com os horrores das guerras, me deparo com uma notícia dessa... meu Deus, tenha piedade de nós...

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