sábado, setembro 09, 2006

Os séculos da alma

Havia pegadas de sangue por toda parte... Assim mesmo ele continuava se arrastando, cambaleante, o corpo exausto, se movendo por princípio de sobrevivencia...

A alma enfraquecida, se perguntando "até quando mais?...
"Ainda se lembrava dos últimos momentos, o desespero humano em seu âmago e por fim, a tragédia! Logo depois, a calmaria... O silencio fúnebre, aterrador...
E em meio aos escombros, lá estava ele, coberto de pó e sangue, ferido da cabeça aos pés... Verdadeira chuva de escombros, quando ainda estava acontecendo, não sabia o que mais poderia cair do céu, depois das vigas de madeira, pedaços de concreto, vidro, braços, pernas, cabeças... Até mesmo pedaços de bois mutilados caíam em cima das pessoas esmagando-as...
Do velho mapa que tinha entre as mãos pouco se via, porque estava sujo de sangue. Afinal, desistiu do mapa e seguiu, por si só as ruas destruídas, cheias de lama e pegadas de sangue por toda parte... Nada mais possuía forma original. Forma de casa, forma de rua, forma de prédios ou carros, nada! Tudo era escombro e morte!
E o sol... Ah, que fazia o sol ainda a brilhar tão ardentemente se não havia mais a quem iluminar ou fazer viver? Estaria ainda ali porque restara um? Se assim fosse, quanta honra! Porém, mais parecia um castigo, não permitindo que a bendita morte viesse cumprir seu destino sobre esse um!
Embora o silêncio total reinasse, tal qual rei cruel, o ribombar ensurdecedor de veículos explodindo, bombas, centenas, milhares delas mandando tudo pro inferno sem piedade nem trégua, ainda era muito vivo em sua mente.
Não importa o mapa! Já está todo manchado de sangue! Amassou-o e o atirou fora. Andaria... Simplesmente caminharia até onde houvesse algum resquício de vida...
Mas não havia... E não havia... E não havia...
E o sol escaldante parecia nunca querer se pôr! Maldição...
Os pés pisaram em alguma coisa! Cacos de vidro. O sangue jorrava... Continuou andando em meio a pedaços de corpos humanos e de animais, sentindo o silêncio macabro, que de vez em quando era quebrado pelos gritos dos urubús que devoravam a carne que encontravam pelo caminho. A dor no pé era terrível, mas era nada perto de toda dor que sentia... À medida que caminhava, deixava pegadas de sangue na lama e a lama encardia seus pés. Fome não sentia. Não poderia, a dor era muito intensa para ter fome, mas a sede o consumia! Avistou uma poça de água suja e correu até ela para saciar a sede...
O cheiro de carne podre o nauseava terrivelmente, possivelmente estaria atingindo alturas consideráveis...
Parou de repente! Avistou um imensa montanha de corpos, que obstruía seu caminho! Que terrível! Nem mesmo todo o horror dos holocaustos foi capaz de acumular tantos corpos e tanto sofrimento... mas não havia tempo para reflexões sentimentais! Precisava proseguir. Contornar a montanha de cadáveres levaria muito tempo, talvez fosse melhor escalá-la. No início foi complicado, os corpos caíam quando ele pisava, mas depois foi conseguindo, algumas vezes caindo, mas logo se levantando e prosseguindo!
Estava tonto com o cheiro de podre, mas resistia assim mesmo! E porque?! Nem ele saberia dizer!
Chegou a despencar duas vezes por causa de uma avalanche de corpos!
Ultrapassada enfim, a montanha, ele pôde prosseguir... Era enlouquecedor, se parasse para pensar em alguma razão pela qual ainda resistia, acabaria desistindo! Era melhor não pensar!
O cenário desolador nunca variava! Escombros, corpos e pedaços de corpos...
Ainda podia ouvir as últimas palavras do sacerdote: "Será desesperador, Shultz! Você terá que ser forte! Ter fé! Será o fim de tudo!..."
À medida que caminhava, avistava mais e mais montanhas de cadáveres! Mas seria possível que não houvesse sobrevivido ninguém mais?!
Montanhas e mais montanhas de corpos e a todas ele escalava, superava e seguia em frente! Ter fé! Sim, precisava continuar! Tinha que sobreviver. Mas para quê? Não sabia. Por alguma coisa que não sabia.
E assim prosseguiu, por quilômetros a fio, resistindo bravamente e sobrevivendo, bebendo água suja de poça, comendo até mesmo carne humana para sobreviver...
Finalmente o sol se pôs...
Os séculos voam como nenhuma criatura do céu jamais foi capaz!
Enfim, Shultz abriu os olhos e viu... Ah, valeu a pena ter resistido por tantas eras! Ele viu!
O oásis... O paraíso...
Foi um simples fechar e abrir de olhos! Tantos séculos de solidão em meio à morte e destruição em um abrir e fechar de olhos!
Valeu a pena! Podia, enfim, respirar! Ah...
Avistou primeiro a família, que acenava efusivamente! Depois os parentes, o sacerdote, os amigos! Deus seja louvado!
Mas, antes que pudesse desfrutar das águas cristalinas da cachoeira do oásis, pensou por um instante sobre o antes... As montanhas de cadáveres, o sol eterno, os ferimentos, o desespero... A esperança! Como isso tudo pôde ter acontecido?
Mas... Será que aconteceu?
...

2 comentários:

Tricia disse...

Pronto, menino! Estamos aí!
Gosotu da formatãção? Ainda há tempo para mudá-la...
Gostei do texto, achei uma alegoria um pouco plutônico (sim, eu disse plutônico, e não platônico, sim: relativo Plutão! Que nem planeta mais é, por sinal...)...
Continue, aguardo os próximos textos!

Tricia disse...

Quis dizer:

Gostou
formatação
plutônica


Aff...