sábado, setembro 16, 2006

Um dia você vai precisar dele...




Um dia, todo mundo (a não ser o Bill Gates e a rainha da Inglaterra) precisa dele. Sim, ele... O hospital público.


Em geral, passamos por ele e olhamos aquela fila quilométrica (e continuamos andando), tecemos algum comentário insosso sobre a precariedade da saúde pública ( e continuamos andando) e sorrimos tristemente, em consideração aos pobres diabos que ali estão, etc (e continuamos andando). E... O que nem imaginamos é de algum dia, poder ser um de nós a ocupar o lugar do infeliz, estando lá, feito um trouxa, plantado naquela maldita fila, morrendo de dor, aguardando que algum funcionário público de boa vontade se digne a fazer sua ficha para ser examinado.


Enfim, a minha vez chegou. Certa vez ao acordar vi que esse era o meu dia de precisar de um hospital público.

E começamos bem. Uma hora e meia esperei na fila. E enquanto esperava, tive que ouvir a conversa espirituosa dos meus companheiros de doença.

- Pois é, menina, eu tô com um ovo debaixo do braço há duas semanas!

- É mesmo? Pois eu tô com inframação nas junta há três semana e eles num resolve nada, só manda voltá dipois! Esses médico tudo são uns carniceiro!

Depois de enfrentar a fila de uma hora e meia, escutando essa agradável conversa dos meus sickmates, apresentei minha carteira de identidade ao funcionário público de boa-vontade e então fui examinado pelo médico de porta de hospital (vou chamá-lo assim), que é o que te examina para se certificar de que o que você tem é realmente grave o suficiente para ocupar tempo e espaço do serviço público hospitalar. O médico que me atendeu perguntou:

- O que você está sentindo?

Bem, em circunstâncias normais, eu responderia:

- Alegria, doutor! Eu sinto muita alegria por estar aqui!

Mas como aquelas não eram circunstâncias normais, e eu estava sentindo muita dor, sabe? Porque dor é o que as pessoas geralmente sentem quando vão ao hospital, mas talvez aquele doutor conhecesse pessoas que vão ao hospital por sentirem tédio, ou raiva de algum parente distante, sei lá... Então, minha resposta foi:

- ...

E como ele não se deu por satisfeito com as reticências (mas por que diabos as reticências nunca são eloqüentes o suficiente?!), mudou a ordem das palavras, acreditando piamente que assim eu o compreenderia melhor:

- Você está sentindo o quê?

Pro inferno com as reticências eloqüentes, a dor era muita para ficar nesse joguinho legal de tolerância zero.

- Eu sinto dor aqui, doutor.

- Deixe ver. Aqui? Dói, quando eu aperto?

- ...

- Quando eu aperto, dói?

- Sim, dói.


Enfim, fui aprovado no exame de entrada, digamos assim, e fui aguardar no corredor, com os companheiros de enfermidade.

Depois disso, bem, vou poupá-lo(a) da maldita saga burocrática à qual fui submetido e que me fez subir e descer quatro lances de escada quatro vezes, para que eu tivesse direito a colher sangue através de uma injeção que não levaria meio minuto. E eu lá, subindo e descendo escada, cheio de dor...

Quando entrei na sala de tirar sangue, estive cuidadosamente atento aos movimentos da enfermeira para me certificar de que ela utilizaria êmbolo descartável, e não um de vidro... Francamente, não queria que me acontecesse o que aconteceu a um infeliz qua há alguns anos chegou a um hospital público porque foi picado pelo mosquito Aedes aegypti e voltou para casa infectado com o HIV porque foi picado por uma agulha contaminada por um resquício de sangue de um êmbolo de vidro. Mosquitinho danado...


Enfim, depois de quase ficar sem nariz em uma daquelas portinhas legais de hospital, aquelas que se abrem para dentro e para fora, quando uma enfermeira invadiu o corredor sem a menor cerimônia, carregando uma maca, fui me sentar e esperar o resultado do exame de sangue. E a dor continua...

Enquanto isso, na sala de tirar sangue, uma garotinha berrava a plenos pulmões, porque se recusava a tomar injeção. Aquele berrinho gostoso de criança, sabe? Eu teria resolvido isso com três tapas na cara e uma bala Juquinha. Mas a psicologia infantil diz que balas Juquinha não funcionam com crianças. Que pena...


A essa altura eu já havia prometido quatro coisas e amaldiçoado cinco para sair daquele lugar com vida. Vida mental intacta.


Após duas horas aguardando pacientemente pelo resultado do meu exame, ouvindo toda espécie de perguntas legais que as pessoas faziam aos atendentes sobre quando teriam seus exames, o meu finalmente chegou. E a dor só aumentando, eu mal consegui mover o pescoço.

Enfim, fui examinado. O médico olhou meu exame e disse que eu não tinha nada. Que tomasse uma tal injeção e aguardasse um pouco. Se não melhorasse, que eu voltasse à sala dele.

E lá fui eu, subir novamente os malditos quatro lances de escada para levar a tal injeção. De fato, melhorei, após meia hora, e desci para agradecer ao médico e para dizer que havia melhorado de sei lá o quê. Da doença de sei lá o quê. Ele então, muito espirituosamente perguntou, antes mesmo que eu desse qualquer explicação:

- Passou a dor?

Tive ímpetos de responder: Não, passou o tédio ou a raiva de algum parente distante!, mas me contive. Preferi, uma vez mais, as reticências eloqüentes. E como sempre elas geraram aquela inversão das palavras, na pergunta:

- A dor passou?

...









Um comentário:

Tricia disse...

Hahahah...

Puxa, vc éum menino muito bem-humorado, não é mesmo?

Legal o meu comentário, não é?

Gostou da formatação?

E ah, sim... Menino ranzinza, o texto é divertido...