sábado, outubro 14, 2006

Vida de músico (ou Baseado em fatos reais 2)


Patrícia Ferraz




O músico passa por cada coisa que se eu te contar é provável que não acredite. Mas assim mesmo vou contar.


Tudo começou numa linda manhã de sol, em uma igreja no centro da cidade. Duas semanas antes, o nosso grupo foi lá mostrar o repertório, previamente escolhido pelos noivos. Preciso dizer que quase nunca o repertório varia? Nada muito além de Jesus alegria dos homens (que parece ser a única música de Bach conhecida, além é claro, da Badinerie, que toca no metrô e nos celulares), Marcha nupcial, o trechinho mais conhecido da Primavera de Vivaldi, que toca em comercial de sabonete e shampoo, essas coisas.


Se eu simplesmente fosse lá, fizesse o meu trabalho, fosse pago devidamente e fosse embora, estaria satisfeito, mas não. É claro que eu tenho que ouvir alguns comentários graciosos, quando por exemplo se referem à música Jesus alegria dos homens:

Ah, é linda essa música, não é mesmo? Mas não toca ela toda não que é muito grande, não vai dar tempo... Isso, só esse primeiro pedacinho. Ah, é tão linda, é a música de Bach que mais gosto...!


Como sou uma pessoa pra lá de tolerante, tive ganas de perguntar:

É a música de Bach que você mais gosta? É mesmo?! E qual outra dele que você gosta?


Obviamente eu poria a noiva em situação embaraçosa com tal pergunta, então, por questões éticas, não o fiz. Mas vontade não me faltou. Ora, alguém que diz ter preferência por uma certa música de um determinado compositor é porque já terá ouvido outras músicas dele para ter parâmetro de comparação. Ou ao menos assim se pressupõe! Se vejo um quadro de Van Gogh e digo: Essa é a pintura de Van Gogh que mais me agrada, é porque antes já vi outras desse artista para dizer que aquela é a que mais me agrada, não?


O que me deixa mais... feliz, é o fato de falar de um dos maiores gênios da humanidade com essa leviandade.


Um dia, alguém me disse: Marcio, meu filho, nessa terra todo mundo é músico ou jogador de futebol.


Mas, voltemos ao casamento. Bem, depois de ter ouvido esses comentários legais, veio a pechincha, é claro. Casamento sem pechincha não é casamento! Mas eu ficaria feliz saber se eles pechincham com tamanha facilidade o preço dos fotógrafos, das flores, do vestido, do salão de festas da igreja...


Enfim, o casamento. O local onde os músicos ficam é, geralmente, algum lugarzinho que certamente seria condenado pela prefeitura. Prestes a desabar ou algo semelhante. Nos esprememos confortavelmente no coro da igreja e fizemos nosso trabalho como manda o figurino.


Não posso conter o sorriso quando começamos a afinar os instrumentos e como são instrumentos musicais, eles costumam emitir certos sons aos quais costumamos chamar de notas musicais. Começamos a afinar instantes antes da entrada da noiva e o cerimonialista, lá de baixo, fica visivelmente deseperado, com cara de ... Cara de ... Bem, com cara de quem acha que começamos a tocar antes que ele desse o sinal da entrada da noiva, e nos acena freneticamente para que interrompamos a música imediatamente. Não posso deixar de me deliciar com a situação e finjo não compreender os sinais dele. Quando então, terminamos de afinar e ele não entendeu nada, ficou com cara de ... cara de ... Bem, cara de quem compreendeu que aquilo era apenas a nossa afinação.


O caro leitor deve estar se perguntando porque não afinamos os instrumentos antes do casamento para evitar esse tipo de situação constrangedora, e eu respondo prontamente: instrumentos musicais (quase todos) desafinam quase que constantemente e precisam estar sendo afinados a curtos espaços de tempo, até que se comece a tocar. É claro que essa mesma indagação é feita, mais tarde, pelo cerimonialista...


No final do casamento, todos muito felizes e contentes vão saindo da igreja a passo de ... passo de ... Bem, a passo lento, enquanto os músicos continuam repetindo a música de saída pela quinquagésima vez, porque sabe, uma hora ela acaba, mas temos que continuar tocando e tocando até que a última pessoa saia, feliz e contente...


Também nós ficamos felizes e contentes por sermos os últimos a sairmos da igreja, enquanto os convidados, o casal e o resto do mundo está banqueteando, muito ocupados em não se lembrarem de que houve um grupo de pessoas que fez a música da festa deles...





3 comentários:

Tricia disse...

Ihhhh... Designer, desenhista, seja o q for tbm sofre... Tbm posso contar uma no estilo Baseado em fatos reais, bem Saraiva mesmo...

Tricia disse...

Coisas como: eu tô pagando só por esse rabisco, só pra essa finalização... mesmo na criação tem gente querendo pechinchar... é mole ou quer mais?

Anônimo disse...

hahahah!
pois é
asabia q eu as vezes me pergunto como as pessoas podem dizer q gostam disso e daquilo se elas nunca nem experimentaram?
chega a ser bizarro..
bjs e até segunda..
:)