O Largo da carioca é mais ou menos assim: um pandemonio desgraçado, enlouquecedor, infernal, onde se anda em meio a um caldo sui generis de figuras quase mitológicas. Todos muito apressados e todos são muitos e muitos são os todos e é tudo isso ao mesmo tempo. Crea-me (como diriam os castelhanos), acredite, realize! De um lado, um cantor brega, cabeludo (adoram fazer tipo...), que produz e vende seus próprios cd's. Vanilson, Vandernelson, Vanderleison, um desses nomezinhos artísticos assim, biito. Ele liga as caixas de som a um gerador e monta uma mesinha para os cd's.
Um pouco mais adiante, a guarita da polícia militar. Em outro canto, o mendigo (não pode faltar...). Há também o espirituoso charlatão piadista que convence os igno... os ignóbeis de que uma boneca (sem roupa, sem braço e sem dente) irá se levantar e andar até um chapéu que ele coloca a cinco metros da dita cuja. E enquanto ela não se levanta e caminha por vontade própria até o chapéu, ele fica contando piadinhas tão engraçadas que me emocionam. E a emoção que sinto é tão grande que chego a andar mais rápido e o mais longe possível quando as ouço.
Em outro canto, há o Jimmy Hendrix perrapado, tocando guitarra, dedilhando solos pra lá de manjados... Além disso é cabeludo também (adoram fazer tipo...). Em outro canto, uma banca que, além de jornais e revistas, vende dvd's de filmes pornô a preço popular e anunciam em um microfone! (é, eles anunciam...)
Em meio a esse zoológico mitológico, centenas, milhares de corpos sem vida, caminhando sem rumo, rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho. Lá, esses pobres zumbis serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas uma caneta folheada a ouro, como presente de aposentadoria.
No meio de tudo isso, é claro (é circo completo), o maluco da Bíblia, gritando e pregando em voz alta para quem quiser ouvir. Mas o que esse pobre coitado não sabe é que ele é só um fanático com síndrome de profeta e as pessoas para quem ele prega não passam de zumbis. Ora, zumbis não escutam, zumbis não pensam, zumbis não tem vontade própria. Eles simplesmente caminham sem rumo, rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho, onde serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas uma caneta folheada a ouro, como presente de aposentadoria.
Mais uma substância que enriquece esse caldo espetacular são os índios peruanos, vestidos com os trajes próprios de sua tribo, tocando em enormes zampônias ornadas de penas coloridas, de aves provavelmente exóticas. Seus próprios cocares que vão até o chão são confeccionados com essas penas. O mais engraçado é que tocam típica música indígena peruana com playback eletrônico. Isso é que eu chamo de pós-modernismo...
Nessa arca da carioca, quase sempre faz um calor escaldante. O cheiro é uma mistura de urina, suor, gasolina, fumaça de cigarro e fedentina de pastelaria chinesa.
Há os vendedores ambulantes, e o que vendem são coisas que vão do útil ao engraçado, passando pelo bizarro. Chumbinho para matar rato, sandálias, protetor solar, óculos escuros falsificados, cd's, dvd's, roupas e sapatos piratas, queijo branco e tijolos de goiabada de proveniência e validade desconhecidos e pecinhas metálicas minúsculas que dão choque quando devidamente acionadas. A típica piadinha do Coringa...
Zumbis aos milhares, camelôs, arranha-céus, profeta maluco, cantor brega, índio peruano, guitarrista perrapado, piadista charlatão, tudo em movimento frenético, ao mesmo tempo, sem parar, milhões de eventos em um átimo de tempo... Um turbilhão enfurecido que engole e mastiga sem piedade quem quer que esteja por perto, seja padre, camelô, índio peruano, Jimmy Hendrix perrapado, Vanderney (nilson, nelson, nulson...) brega ou um zumbi caminhando sem rumo rumo a um abatedouro que estranhamente chamam de trabalho, onde serão explorados por seus patrões até a medula e no fim da vida ganharão dos colegas zumbis uma caneta folheada a ouro como presente de aposentadoria...

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