quarta-feira, dezembro 10, 2008

Eu passarinho

Olhando aquele passarinho triste, dentro de uma gaiola pendurada em uma parede branca de gesso, senti-me triste, também. Resolvi me aproximar e amenizar, nem que fosse um pouquinho, a solidão do meu amigo plumado.
-Olá, meu engaiolado! Como andas?

-Como vês! Entre grades e dois potinhos. Um de água e outro de alpiste.

- Diga-me: Há quanto tempo estás preso?

-Já nem sei. Era ainda pequenino quando me levaram...

-E como fazes para espantar o tédio?

-Ah, o tédio, o fantasma do tédio... sim, é verdade, há muito tédio aqui dentro e não tenho como espantá-lo sempre, mas com o tempo aprendi alguns truques. Já contei o número de grades da gaiola, quando posso conto os grãos de alpiste, as penas que caem de mim e quando mais nada sobra aqui dentro, observo as pessoas lá fora, os carros, o movimento das lojas, o sol, a lua, as estrelas...

-E não sentes saudade do tempo em que eras livre?

-Sinto muita saudade, mas a bem da verdade, lembro-me muito pouco desse tempo. O senhor me faz muitas perguntas e não conta nada de sua vida.

-Não há nada de muito interessante nela. Sou um carteiro aposentado. Passei a maior parte da minha vida distribuindo cartas.

-Não parece muito empolgante.

-E não é.

-O senhor é casado?

-Não.

-Tem filhos?

-Não.

Nesse momento, o passarinho pareceu se entristecer ainda mais. Abaixou a cabeça, virou-me as costas e foi deitar-se em um canto da gaiola. Foi quando tive uma idéia.

-Escuta, passarinho. Quero te devolver a liberdade.

-Impossível, impensável, inimaginável.

-Seu mestre não se encontra e até que volte já poderíeis ter alçado vôo.

-Absurdo.

-Dizes sentir saudade do tempo em que eras livre, mas quando lhe ofereço uma chance de escapar, recusas sem precedentes, porque?

-Muito simples. Simplesmente se o senhor abrisse a portinhola e eu voasse por aí, mundo afora, livre como pássaro que sou, meu mestre, quando encontrasse a gaiola vazia levaria um susto, sentiria-se mal e provavelmente entraria em depressão.

-Oh, não sejas tolo! Ele logo arrumaria outro no teu lugar e jé então teria te esquecido por completo!-com essa resposta, o passarinho se ofendeu.

-Agora quem é o tolo aqui? Acaso o senhor ignora que sou absolutamente insubstituível?
-Vejo que esta gaiola fez mal aos teus miolinhos de pássaro. Ninguém nesse mundo é insubstituível, meu caro. Eu, por exemplo: quando fiquei velho, não me apresentaram condolências e nem sem comportaram com pudores. Puseram outro carteiro no meu lugar! Mais jovem e mais robusto. E agora pouco se importam se morri, se virei mendigo ou se estou bem.
-Vejo que o senhor passou por muitas decepções na vida. Aceito sua oferta de liberdade com uma condição.
-Qual?
-Que o senhor fique no meu lugar até que eu volte, um dia.

-Eu? Viver em uma gaiola?!

-Sim. Para que meu mestre encontre alguma coisa no meu lugar, quando voltar, e não se sinta tão triste com minha ausência.

-Trato feito.

E assim, troquei de lugar com aquele passarinho, entrando naquela gaiola apertada. Imagine-se a minha dificuldade, eu, sendo um ser humano, entrando em uma gaiola de passarinho.

Pensei que o meu amigo das penas fosse ficar todo agradecido pelo favor imenso favor que lhe prestei, mas ao invés, mal eu havia aberto a portinhola, saiu voando veloz, sem dizer uma só palavra nem olhar para trás.

Os primeiros meses foram os mais difíceis. O espaço minúsculo não me permitia movimentar livremente nem dormir com tranquilidade. A segunda dureza foi me acostumar com alpiste e a água suja posta em um potinho.
No primeiro dia, quando o dono da gaiola me viu no lugar de seu passarinho cantante, ficou furioso.
-Onde ele está?

-Por aí. Eu o libertei.

-Ah, o senhor o libertou? Pois agora estás condenado a cantar no lugar dele, todas as manhãs!

-Como o senhor desejar.

E assim foi que comecei a entoar árias todas as manhãs. Mas não agradava ao meu senhor. Minha voz não era acostumada à música, ao contrário. Era rouca e sem potência. Ainda assim eu fazia o melhor que podia, mas meu repertório era limitado.

Passados os primeiros meses, o incômodo do espaço passou um pouco, mas o tédio aumentou. Lembrei-me das palavras do passarinho e tentei fazer o mesmo que ele para espantar o aborrecimento. Comecei pelas grades. Uma, duas, três... depois passei aos grãos de alpiste. Cento e cinquenta e três, cento e cinquenta e quatro... acabado o alpiste, passei a contar os carros. Depois que me cansei dos carros, foram as pessoas, e quando até as pessoas me aborreciam eu tentava dormir para escapar.

Vieram-me pensamentos egoístas. Comecei a me indagar se teria sido boa coisa ter trocado de lugar com o passarinho. Ele disse que eu permanecesse na gaiola até que voltasse, mas sabe-se lá se voltaria. Talvez tivesse sido devorado por algum predador ou talvez tivesse caído de uma grande altura por não saber voar direito, afinal, ficou preso a maior parte da vida, como poderia encarar um mundão repleto de perigos e percalços, sendo ele apenas um passarinho?

Comecei a recordar minha vida antiga. Aposentado há quinze anos. Sozinho e velho. Afinal, foi bom ter trocado de lugar com o pássaro. Pelo menos assim prestava algum favor realmente significativo a alguém. Algum favor que não fosse distrubuir cartas.

Minha tristeza aumentava a cada dia naquela gaiola. Comecei a imaginar onde estaria meu amigo cantante, se esivesse ainda vivo, o que era pouco provável. Será que estaria em um lindo jardim de alguma parte longínqua do mundo, se deliciando com as flores e todas as delícias dessas lugares verdes? Será que teria cruzado a vôo algum oceano e chegado a algum país distante e exótico? Torcia para que não tivesse se deixado apanhar novamente, em alguma arapuca.

Já fazia anos que entrara naquela gaiola e já perdera toda esperança de que o passarinho voltasse e que eu pudesse encontrar minha liberdade, mas um dia, acordei com uma música linda, aguda e serena. Eram pios de pássaro. Era ele! Era meu amigo passarinho! Ele me cumprimentou:

-Olá, meu velho! Como andas?

-Como vês. Entre grades e dois potinhos. Um de água e outro de alpiste.

-Estou vendo. Me lembro bem de minha antiga vida nessa gaiola.

-Na verdade, sua antiga vida era livre, você apenas a reconquistou.

-Tens toda razão meu bom homem! E que vida! Estou adorando voar por aí, fazer novos amigos, conhecer terrras distantes e desconhecidas pelo homem!

-Que bom - respondi laconicamente.

-Pelo que vejo, o amigo não está apreciando muito sua vida de gaiola?

-Nem tanto. na verdade é sua vida e não a minha-respondi amargamente.

-Concordo, meu amigo e nem eu digo o contrário, mas o combinado foi que o senhor só sairia da gaiola depois que eu retornanasse.

-E acaso não estás agora mesmo na minha frente? - diante dessa pergunta o passarinho pareceu um tanto confuso.

-Oh... é verdade, estou. Mas não regressei de fato. Apenas vim visitá-lo para saber como estavas? logo voltarei às minhas aventuras pelo mundo afora.

-Compreeendo que tenhas gostado tanto assim do mundo, meu amigo. Deveras é muito bonito, embora para nós, humanos, não seja tanto assim por não termos a capacidade de voar como tu. Mas se não se importa, gostaria de retornar à minha liberdade agora.

-Lamento. Trato é trato. Quando eu voltar definitivamente aí sim poderás retornar à tua liberdade - disse isso já voando para longe, de maneira que não pude dizer mais nada.

Outros tantos anos de confinamento se passaram e nada do passarinho retornar. Um dia, um plumado pousou perto da minha gaiola. Meu coração disparou de alegria. Pensei: "É ele." mas qual não foi minha decepção quando, reparando bem, descobri que não era. Embora não fosse ele, resovi falar com aquele, assim mesmo.
-Bom passarinho. Como tens passado?
-Muito bem. E o senhor?

-Estou bem. Mas diga-me: sabe por onde anda aquele que antes habitava essa gaiola?

-Não compreendo sua pergunta. Foi o senhor que sempre esteve nessa gaiola.

-Estás completamente enganado, meu amigo! Antes havia um pássaro aqui. Como tu.

-Bem... agora me recordo... de fato, havia um irmão nessa gaiola. Mas isso foi há muito tempo. Já nem sei por onde ele anda agora.

-Pois a mim agradaria saber...

Por muito tempo pedi a Deus que levasse, afinal, minha alma de passarinho, mas por alguma razão não fui atendido. talvez por ser passarinho desconheça tal razão.

Um dia, mal havia o sol se levantado e tudo ainda estava escuro, acordei com aquela mesma ária que me despertara há anos atrás. Quando abri os olhos, à minha frente, voando, o passarinho. Dessa vez não me enganara. Era ele. Não disse nada. Apenas ficou me olhando, um tanto pensativo. Dessa vez, seus olhos não pareciam tão afoitos e cheios de ansiedade como da outra vez quando veio me visitar. Dessa vez pareciam mais mansos.

-Olá passarinho.

-...

-Conte-me suas viagens para que eu me distraia um pouco.

-Está na hora.

-Na hora de quê? De finalmente cumprir sua parte no trato e me restituir a liberdade e me deixar viver em paz meus últimos dias?

-Está na hora da partida.

Dizendo isso, o passarinho abriu a portinhola. Embora pretendesse me libertar, não tencionava retornar ao cárcere.

Agora livre, saí da gaiola voando ao lado do passarinho. Percorremos espaços e mais espaços de azul, até nos perdermos, para além do último horizonte, completamente embriagados pelo vinho da liberdade...

Um comentário:

P.F. disse...

Muuuuuuuuuito liiiiiiindo, meu chuchu!
Vc foi, de fato, inspirado! O texto em verde também tem tudo a ver, só poderia ser um tom mais fechado pra não prejudicar a legibilidade. Mas pode deixar q eu arrumo teu layout sem falta...

E agora não tem essa de não saber do meu novo blog: é só clicar no meu perfil aí do lado, o endereço está lá.
Mas ainda tem pouquinha coisa, entre novidades e "velhidades"...

No mais... Vc sabe...

Reticências e mais reticências...