Estamos perdendo nossos artistas. Essas pessoas tão especiais que
fazem do mundo um lugar melhor (não que outras pessoas não façam, não
entendam esse texto como um culto desvairado à fama).
2009 levou muita gente boa. Gente que faz música, teatro, cinema,
livros, tv, gente que encanta com a sua arte, gente que nos faz rir,
nos faz chorar, que nos traz alegria naqueles momentinhos de férias,
horário de almoço, fins de semana. Gente que nos transporta quando não
estamos trabalhando, gente que nos ajuda a sair dos estresses,
preocupações e aborrecimentos do trabalho e do dia-a-dia, gente que
traz beleza ao mundo a compartilha com muitos.
Como artista me sisto um pouquinho triste com isso. Não uma tristeza
avassaladora, mas uma tristeza daquelas que apertam o coração, das que
dão saudade...
Ontem levei alegria a algumas pessoas, com minha Música e me sinto
feliz com isso. Sinto que mais um pedacinho da minha missão foi
cumprida. Também um dia minha vida será ceifada e espero, como
artista, ter levado alegria e quem sabe (perdoem a pretensão)
felicidade a algumas pessoas.
Há alguns dias, lendo uma revista, quase que casualmente, me deparei
com uma reportagem sobre a juventude de hoje. O artigo descrevia as
vantagens e desvantagens. Entre as desvantagens, era a falta de
idealismo, de motivação para quase tudo. Mas o que mais me
"supreendeu" negativamente, foi o pragmatismo como desvantagem. O
pragmatismo no mau sentido. Aquele pragmatismo pernicioso que faz um
adolescente perguntar "Mas para que eu preciso aprender Música? Pra
que serve isso?"
O que me deixa mais triste é que as pessoas que deveriam saber
responder a essa pergunta estão desaprendendo a responder, em parte
porque também elas não sabem o que estão fazendo com sua arte, não tem
consciência. Mas eu respondo. Ao menos em parte, sinto-me na obrigação
de responder a essa pergunta que venho ouvindo desde os meus sete anos
de idade, quando então comecei a estudar Música. Não responderei por
vingança a todos os ignorantes que disparam essa pergunta à
queima-roupa, tão genuinamente desprovidos de qualquer sensibilidade.
Responderei a essa pergunta porque considero importante responde-la a
mim mesmo e, quem sabe, a outros que a estejam buscando.
Pois muito bem, é uma questão generalizada, que não se refere a uma
coisa ou outra, mas uma pergunta que parece estar na boca de muitos
adolescentes : "Pra que serve isso na minha vida?"
Eu compreendo a pergunta e compreendo que pessoas de certa idade a
façam. É mais fácil responder para que serve um carrro do que
responder para que serve a Música na vida de alguém.
A Música serve para que você seja uma pessoa melhor. A Música serve
para ativar seu cérebro e estimulá-lo (la) e pensar mais e melhor,
ativa partes do cérebro desativadas. A Música toca na alma. A Música
melhora o mundo. A Música serve para que você não embruteça! A Música
serve para que você não pense que as únicas coisas que valem a pena na
vida são: ter uma casa, um emprego "estável" e um carro na garegem.
Para isso serve a Música. E para muito mais... A Música ajuda a
diminuir os assassinatos no mundo, a Música sensibiliza, transforma
corações e mentes.
Eu poderia escrevr uma biblioteca inteira discorrendo sobre os poderes
da Música (terapêuticos, morais, pedagógicos, espirituais, mentais,
etc). E no entanto, posso descrever em uma linha para que serve um
carro: para te levar e trazer a determinados lugares, com conforto.
Ou uma casa: para abrigá-lo. Simples,não?
Talvez, quando não saibamos responder para que serve alguma coisa, nós
a descartamos, a jogamos no lixo, por pensarmos que, se não podemos
responder imediatamente para que serve (culto ao imediato, bem típico
do século XX e XXI), não serve para nada e nem vale a pena perder
tempo (sempre a corrida louca para ganhar tempo e no fundo, sempre
perdendo-o...) pensando sobre.
Por isso, antes de perguntar "pra que serve isso", pense duas vezes,
porque "serventia" é um conceito muito relativo e que certamente não
se aplica tão somente a coisas materiais e mais imediatas. Se aplica
também a coisas como Música, ou um sorriso (para que serve um
sorriso?)...
Nem tudo tem uma aplicação material, no mundo físico e é tão
importante essa compreensão... é metade da vida!
Lembro-me que, em minha adolescência, um colega de turma me perguntou
porque eu cantava no Coral do Colégio? Mas me perguntou indignado e
arrematou a pergunta com outra: "O que você ganha com isso?" Me lembro
de não ter sabido responder a essa pergunta e me lembro de ter ficado
com muita raiva também, porque embora meu coração soubesse porque eu
cantava no coral, minha mente ainda imatura demais não foi capaz de
elaborar uma resposta em palavras àquela questão. Talvez eu o tivesse
ajudado se tivesse sabido responder. Mas eu não soube. Só fiquei com
muita raiva. Hoje eu rio dessa situação e vejo que ele era apenas um
adolenscente de cabeça vazia, com valores pobres e medíocres,
certamente fruto de uma educação igualmente vazia.
Voltando ao nosso pequeno memorial, mas sem abandonar de todo nossa
pequena reflexão. Não perguntamos para que serve o que Ed mota faz,
não perguntamos à Marisa Monte "Pra que serve você cantar?". Não
perguntamos aos atores "Por que vocês atuam?". Para nos entreter.
Simplesmente tudo isso. Entretenimento, isso que muitos confundem com
escapismo ou mera distração temporária, o que na verdade é
enriquecimento da mente e da alma e mesmo uma questão de
sobrevivência. Não, não estou sendo dramático. Arte não é luxo, é
necessidade, tanto quanto comida ou água. Necessitamos dela para
sobreviver-mos.
Três pequenos apelos:
1- Pense duas vezes antes de perguntar "Pra que serve isso na minha vida?"
2- Valorize os artistas que temos, muitos deles estão indo embora.
3- Valorize o pequeno artista, o que não é conhecido pelas multidões.
Valorize-o, porque também ele leva alegria e esperança e talvez de uma
forma que o grande (grande no sentido de fama) artista não poderia. O
pequeno artista está em contato íntimo com seu público e isso é
impagável.
Minha companheira diz que acredita na renovação, quando menciono os
artistas que estamos perdendo. Quero acreditar também, mas confesso
que não sou tão otimista quanto ela, principalmente quando vejo o que
está vindo das novas gerações...
Quando, meu Deus, quando, teremos pessoas tão boas (artisticamente
falando) quanto essas que se foram em 2009 e em tantos outros anos?
Para finalizar, uma singela homenagem a alguns artistas que se foram nesse ano.
1-Dirce Migliaccio
2-Mara Manzan
3-Herbert Richers
4-Patrick Swayse
5-Michael Jackson
6-Mercedes Sosa
7-Bo Diddley
8-Israel Cachao Lopez
9-Dorival Caymmi
10-Jamelão
E muitos outros, é claro. Mais ou menos famosos. Olhemos bem para
esses dez nomes e reflitamos sobre os artistas que ainda temos e que
não damos o devido valor, tais quais:
1-Elza Soares
2- Autran Dourado
3-Bia Bedran
4-Marcélia Cartaxo
Estão vivos ainda. Talvez não por muito tempo. Prestigiemo-los...

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