Tudo era tão festivo. Na grande sala da última casa da rua Padaria ( e embora tivesse esse nome, não havia padaria alguma num raio de 100m) havia um belo sofá bege, com lugar para cinco pessoas. Havia também uma belíssima cristaleira, repleta de jogos de porcelana e cristal. Uma estante com livros os mais diversos, literatura brasileira, inglesa, alemã, livros de psicologia, direito, política etc. Uma televisão enorme de muitas polegadas, aparelho de dvd. Havia também um belíssimo lustre, vindo de Londres, e é claro, um tapete persa. E como era Natal, havia também um grande pinheiro, plenamente ornamentado com grandes bolas de vidro - sim, de vidro - coloridas, miniaturas de presentes, de botas e do bom velhinho. E um belíssimo pisca-pisca, de cinco cores e que pisca sincronizado com a música que toca. E é claro, presentes ao pé da árvore. Várias caixas coloridas. Na parede, um grande quadro com uma bela pintura de cores frias, retratando a noite de alguma capital fria. Londres, talvez. Uma bela mulher acabara de sair do banheiro, enxugando os cabelos e exalando cheiro de shampoo por toda a casa. Na cozinha, um homem placidamente cortava fatias de peru, distribuía ameixas e fios de ovos. A mulher foi até a varanda e observou lá fora. O marido, trazendo a bandeja com o peru para a mesa da sala, quando a viu, chamou: - Aurora querida, que está fazendo aí? - Só olhando... Ele depositou a bandeja na mesa, calmamente, e foi até ela. Suavemente lhe tocou nos ombros, por trás. - Querida, não quer me ajudar com os pratos? Já são quase dez horas, a Sandra vai chegar a qualquer momento com o Dário e as crianças. Tia Augusta também deve estar chegando... - Ah, nem me fale da sua tia, ela é tão desagradável... Não sei porque você tem sempre que convidá-la para nossa ceia de Natal! - Aurora, já conversamos sobre isso. Tia Augusta não tem mais ninguém, quero que ela passe o natal conosco. - Justamente porque ela não tem ninguém além de você é que não devia pisar nas pessoas, e ela sempre faz isso. - Ah, também não é para tanto, querida. Não vamos brigar por uma bobagem dessas, em plena noite de natal, está bem? - dizendo isso, beijou-lhe na testa. Aurora sorriu tristemente, mas concordou. A campainha tocou e ela foi abrir a porta enquanto Carlos levava as coisas para a mesa. Era tia Augusta, uma senhora de mais de setenta, gorda, baixa, de cabelo curto, pintado de um ruivo cafona.Tinha em uma das mãos uma bolsa com três ou quatro presentes. Na outra, uma garrafa de vinho português. - Boa noite, Aurora. - disse secamente, com uma voz grave e rouca. - Boa noite, D. Augusta. Vamos entrando. - Está bem. Ponha esta garrafa na geladeira!... Onde está o Carlos? - Acho que foi ao banheiro... - Puxa, que coincidência! - disse, sorrindo sarcasticamente. - Foi só eu chegar para ele sair da sala. Será que eu incomodo tanto assim? - Ah, D. Augusta, por favor, está bem? Carlos, sua tia chegou! Carlos... - e foi saindo da sala, com a frágil desculpa de ter que ir chamar o marido, deixando tia Augusta na sala, indignada. Carlos saiu do banheiro e se encontrou com a esposa no corredor, gesticulando raivosamente e sussurrando: - Vai lá, falar com a sua tia! Ela já chegou indignada por você não estar na sala para recebê-la! Carlos respondeu, baixinho: - Mas será que nem ao banheiro eu posso ir? - Diga isso a ela! - Vamos lá, falar com ela. - Vá você. Vou ficar lendo, no quarto. - Aurora, por favor, não começa... - Quem começou foi ela... Ouviu-se a voz rouca e alta, vinda da sala: - Carlos! Carlos, não vem falar com a sua tia? Como pode? Carlos! - Já vou, tia... Pode esperar um minuto? Carlos foi fazer sala enquanto Aurora enfiava-se no quarto, furiosa. - Olá, tia. Tudo bom? - Tudo bom, Carlos. A sua mulher que parece não estar lá muito bem, não é mesmo? Saiu daqui aborrecida, me deixou sozinha aqui na sala! - Ela não anda muito bem, tia... E a senhora bem que podia colaborar, não? - Mas o que foi que eu fiz? Só disse que achei engraçado eu chegar e você correr para o banheiro... - Eu não corri para o banheiro, apenas me deu vontade de ir ao banheiro, será que nem isso eu posso?! Estou trabalhando na cozinha sem parar desde quatro horas da tarde, preparando a ceia! - Está bem, não precisa ficar assim nervoso! Olha, eu trouxe uma garrafa de vinho e pedi que Aurora pusesse na geladeira para esfriar. Traz uma taça para mim, sim? Ele está simplesmente di-vi-no! Enquanto isso, no quarto, Aurora ligava para a irmã. - Alô, Sandra? Oi, querida, tudo bem? Tudo, comigo está... Bom, nem tudo. A tia do Carlos está aqui. Aquela velha insuportável... Já, já chegou, menina! Ela é sempre a primeira a chegar! E a última a sair, impressionante!... Ai, Sandra, eu estou sozinha aqui, você vai demorar a chegar? Jura? Cinco minutos? - Aurora abriu um sorriso de orelha a orelha com a boa notícia. - Salvadora da pátria! Beijos! Tchau! Na sala, D. Augusta, pachorrentamente sentada no sofá, tomando vinho, de vez em quando dirigia a palavra ao sobrinho, entre enormes intervalos de silêncio pesaroso. - Quando é que você vai me dar um sobrinho, Carlos? - disse, maliciosamente. Carlos suspirou baixinho e arqueou ligeiramente os ombros, já prevendo a ladainha de sempre. - Não sei, tia. Mas não vai demorar, prometo. - disse sorrindo, numa tentativa frustrada de dar o assunto por encerrado. - Pra logo? Você vem dizendo isso há três anos! - A senhora está cansada de saber que Aurora ainda não está pronta. - Olha, Carlos, eu não tenho nada com a sua vida, mas a sua mulher está te enrolando... - Vamos falar de outra coisa, titia?! - disse isso em tom já visivelmente aborrecido. A tia fez uma cara feia e não disse mais nada. A campainha soou e Aurora logo saiu do quarto toda contente para receber a irmã. D. Augusta, ao vê-la passar pela sala, olhou-a de alto a baixo, sorriu com sarcasmo, e disse: - Apareceu, Margarida! Que milagre! Aurora ignorou solenemente o comentário espirituoso e foi até a porta. A chegada de Sandra, Dário e as crianças aliviou um pouco o coração de Aurora. Quem fez cara feia para os novos convidados foi D. Augusta que, não contente em implicar com a mulher do sobrinho, atacava também a família dela. A ceia transcorreu lentamente, em silêncio abafado, perturbador... Vez ou outra alguém fazia algum comentário insosso sobre o tempo ou qualquer outra trivialidade do gênero, apenas para quebrar o silêncio. O clima era pesado, as pessoas ouviam as respirações umas das outras, tamanho era o silêncio. Apenas se concentravam na comida, com a cara enterrada no prato. O tilintar dos talheres era frenético e foi crescendo, crescendo, a ponto de se tornar um verdadeiro caos sinfônico metálico, onde garfos e facas subia e desciam em ritmo alucinado, transportando a comida do prato para as bocas, subindo cheios, descendo vazios. Embora o silêncio pairasse soberbo sobre aquelas cabeças, melhor seria continuar nesse estado do que ser quebrado pela pessoa menos indicada para fazê-lo: D. Augusta. Sempre ela... Tem sempre que dizer algo desgradável, e à mesa, com todos comendo... Em pleno natal... - Pois é, Sandra, você sabe que logo teremos um menininho correndo por aí, sabia? Todos se olharam, constrangidos. Sandra ingenuamente sorriu para a irmã e perguntou: - Aurora, você está grávida? D. Augusta logo respondeu: - Ainda não, mas o meu sobrinho me prometeu um menininho para esse ano próximo, não é mesmo, Carlos? - disse, sorrindo. Ninguém ousou dizer nada. A comida era farta, talvez para compensar a falta de conversa. Paulatinamente, o peru, as castanhas, rabanadas, uvas, o bacalhau com batatas, o pudim, o sorvete eram devorados. Quando, enfim, a meia-noite chegou, todos se abraçaram hipocritamente e trocaram presentes. E, para não ficar chato, para não pegar mal, as pessoas não foram logo embora, para depois não se dizer, pelas costas, que foram lá apenas para comer. Embora o caso de D. Augusta fosse diferente: ela não ia embora porque era inconveniente mesmo. E sendo tão inconveniente, continuou falando sobre assuntos desagradáveis ao sobrinho e sua esposa. Até que, irritado com tanta provocação, Carlos deu um berro, fazendo a tia se calar e ficar olhando para ele, indignada: - Chega!!! - silêncio breve - Minha esposa e eu não queremos falar sobre isso, e se a senhora insistir, vou pedir que vá embora e não volte!!! Pela primeira vez naquela noite (quicá na vida), D. Augusta teve bom senso e foi embora, sem se despedir ninguém, sem dizer palavra. Depois disso, o ambiente ficou, obviamente, mais respirável. Mas Aurora estava triste. Ela foi para a varanda se sentou no chão, pensativa. Estava como o olhar longe, perdido... Carlos se aproximou da esposa, cautelosamente, e pôde ver que ela chorava... A emoção também lhe veio ao peito, mas se conteve. Aurora murmurou: - Não me sinto preparada para ter outro filho, Carlos... - Eu sei, querida... - Eu ainda sinto muito a falta dela... - Eu também... - Até hoje não compreendo porque ela fez aquilo... Carlos não soube o que responder. Havia três anos apenas, desde aquele dia fatídico... Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender(...) (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
terça-feira, julho 17, 2007
Noite de Natal
Escrito por
Marcio
às
12:49 PM
Tags: literatura
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Um comentário:
Sabe, muitas das vezes me identifico com Aurora... Vc bem sabe...
Gostei do texto. Poderia ser ainda um pouco mais fluido, penso; mas é beeeeeeeeem interessante. Tá ficando fera, só não pode ficar besta...
Logo vamos ter mais textos postados... Mil bjos pro meu menino...
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