domingo, março 23, 2008

Santo André... Ah, Santo André...

        Silêncio sepulcral. Sepulcro. O Mestre foi sepultado. Dois mil anos depois, o jantar da família ainda guarda o respeito daquela noite. Daquela tarde na qual até a natureza esteve de luto. Ninguém fala, além dos talheres. As carrancas se contraem para disputar tristeza. A velha não tira a cara do prato e apesar do esforço de equilíbrio, derrama sopa.  O pai afunda, na sopa, pedaços grandes de pão endurecido e os devora. A mulher, é só uma sombra. Ai da criança que abrir a boca. Leva um tapa e ainda fica sem jantar.
        Uma lamparina pálida, quase finda. Penumbra. Única refeição do dia. Jejum. O Mestre foi assassinado. Não se fala, não se olha nos olhos, não se sorri e se sente culpa pela comida. E se culpa pela comida. E se come culpa. O Mestre está morto. Maldito... Que será de nós? Precisamos comer com culpa para sermos um pouco menos culpados.
        A carranca da velha exigia cuidado com a casa. Os romanos podem invadir a qualquer momento, com toda a espada, com toda a fúria. Já a carranca do pai não alcançava a tristeza da carranca da matriarca (missão difícil), mas ainda assim era temível. Terrível. Essa. Essa carranca dizia que as coisas poderiam ter sido diferentes se o Mestre tivesse fugido. Ora, porque não fugir?! Homem de pouca fé... A carranca da mãe era carranquinha, alguma Maria perdida no Calvário. Alguma assustada de olhar perdido, por aí. Alguma sem-voz assustada Maria perdida carranquinha por aí. A carranca da sogra censura a da nora, por tão pouco pesar... Como pode ser tão desrespeitosa? Acabaram de escorrer o Sangue do Senhor há dois mil anos e essa... Desavergonhada se veste de azul! Não és Maria piedosa! És Maria prostituta! Quer perturbar o Santo Sono sepulcral do Senhor? Está assassinado! Deixa Ele lá! Deixa Ele assim!
        Tudo na família cheirava a putrefação. O Mestre está morto, então a fé está morta.
        Ao final do santo jantar morto, a garotinha sorriu (blasfêmia), olhou para a carranca-avó direto nos olhos (sacrilégio) e disse em doçura de Santo André, o menino tão amado por Jesus:
        - Vovó! Porque estamos todos tristes? Jesus está vivo!

Um comentário:

P.F. disse...

Devo dizer que gostei muito do texto. Já queria dizer isso há tanto, mas são tantos os contratempos... O sorriso da menina parece o melhor artifício, o melhor antídoto contra a putrefação de almas!

E já estou no aguardo de uma nova fase em Lugar Algum, que precisa ser lugar de outros e novos tipos de visita...
Precisa ser lugar arejado, literário e bem-lembrado!