quinta-feira, abril 24, 2008

Viverei

Essa mãe precisa morrer. Olha o inferno que é a vida dessa mulher! O marido a chifra como quem troca de roupa. E ela sabe. Os cinco filhos de sete, oito, nove, dez e onze, respectivamente, não dão sossego. A família só faz dizer: "Nós bem que te avisamos!". Separação? Nem pensar. Ele prometeu que contaria para os filhos e para a família dela sobre seu passado maldito se ela tentasse a separação. Ele não quer ficar longe dos filhos. A bem da verdade, não quer ficar longe da mais novinha. Sofia. A garotinha do papai. Ah Sofia... a culpa é toda sua, Sofia... não fosse você e a vida da tua mãe não seria esse inferno, porque teu pai não faria a mínima questão dos teus quatro irmãos homens, e consequentemente, não faria esforço para impedir a separação. Para ele seria até um favor! Se livrar desse estorvo que é a tua mãe, mera parideira! Mas estão condenados um ao outro. Uns aos outros. Ela faz o favor de não entrar com o pedido de separação na justiça e ele faz o favor de não espalhar aos quatro ventos que se casou com uma prostituta. Que a resgatou das ruas e que quando o fez, ela estava acabada. Cheia de doenças e um bando de gente perigosa no encalço. Incluindo um cafetão que exigia ser ressarcido em $10.000, dívida essa que seria paga por aquele que seria pai de seus cinco. Já que ela não fica com ele por gratidão, por um mínimo de respeito que deveria ter pelo homem que a tirou das ruas, que seja, então, à base da chantagem! Ou fica quietinha ou ele espalha as fotos. Ah, se fossem só palavras... palavras o vento leva. Palavra se rebate com palavra! Helena de Tróia pode ser culpada num dia e inocente no outro, só com a palavra. Um discurso bem elaborado desmente até evidência! Mas além da palavra, ele tinha muitas fotos... e por mais que as tenha procurado, ela não as encontrou em casa! Aquele desgraçado as escondeu fora de casa!
O elo desse inferno é uma inocente e imaculada garotinha de sete anos. Sofia. Ei, Sofia! Psiu! Sofiaaaa... Você mesma, cândida filha da pílula... Só nasceu porque naquela pílula tinha farinha!. Pobre garotinha... Tão inocente e tão culpada... Seu pecado é ser a menina dos olhos do papai. Seu pecado é ter nascido. O propósito da tua vida é ser o elo desse inferno de casamento.
Segundo alguns trotes telefonicos, até família fora ele já tinha. Boatos esses bem prováveis. Uma vez até apareceu em casa com uma ninfeta chamada secretária.
Ela vai se matar, já decidiu isso há algum tempo e não a condeno. Olha o inferno que é a vida dessa mulher. O marido a chifra como quem ama. E ela sabe. Cada semana com uma, cada mês com cinco. Os cinco de onze, dez, nove, oito e sete são uns capetinhas. O de onze tem instintos maus e atormenta o gato até ele miar como se fosse uma fêmea no cio, o de dez não pára de correr e de falar, o de nove não pára de botar fogo nas coisas, o de oito não pára de perguntar "porque o céu é azul, o mar é redondo e a Terra é salgada" e a de sete é a cabeça da quadrilha. E sonsa, ainda por cima.
Saiu de uma vida de prostituta para ser parideira desse canalha. Precisa morrer. Merece morrer. Tem que morrer! E é agora! Dessa noite não passa.
"O que vai ser para o jantar, querida prostituta parideira?", "Frango para você e as crianças e salada com veneno concentrado para mim, querido chantagista canalha."
Esplêndido! Toalha branca com lindo bordado, panelas fumegantes, filhotes de banho tomado, comida maravilhosa, velas (vejam só), enfim, mesa maravilhosamente bem posta e ela! A bela dona-de-casa prostituta, com um sorriso na cara e um vestido vermelho ligeiramente provocante. Só esperando o maridão... Seria o suicídio perfeito. Seria a vingança perfeita. Ela só espera ver, de onde quer que esteja, a cara do marido, confuso, e como esse porco chantagista vai cuidar dos cinco porquinhos sem ela... Ah, já antegoza o momento final! O jantar perfeito e para ela, o último.
Chega, enfim, o chauvinista de terno e gravata. O porco beija a prostituta de vermelho hipocritamente e os dois, por alguns minutos, fingem que se amam. Ele desconfia de tamanha dedicação. Ela serve os pratos com um sorriso que não vai sair da cara até cair morta, se estrebuchando. O elo do inferno senta-se ao lado do porco enquanto a prostituta os serve.
- A salada é só pra mim - pronunciou, amavelmente- Estou de dieta - arrematou com um sorrisinho maroto.
O porco chegoou a sorrir e quase a amou novamente. Uma onda de ternura invadiu a todos. Invadiu os quatro anjos paridos, invadiu o elo do inferno, invadiu o porco, invadiu a prostituta.
Até oração teve, naquela casa de figuras kafkinianas. Enfim, tem início o jantar. O porco começa a devorar impiedosamente. Os quatro anjos parecem não tomar conhecimento de mais nada além deles mesmos e da comida em seus pratos. O elo do inferno estava triste. Pressentiu algo muito terrível.
A comida sendo devorada, muito a muito, e ela nem havia tocado na salada, ainda. Por fim tomou coragem e levou à boca a primeira garfada. Parou. A boca aberta, o garfo com a salada envenenada, no ar. Ah... todo mundo viveu, menos ela! Vida de puta não é vida! Vida de mulher desse porco também não é vida! A sonsinha é a filhinha do papai! Ganha docinho, presentinho e passeios caros. Os quatro anjos sempre fizeram o que bem entenderam. Incendiaram, gritaram, enfim, viveram! O porco teve tantas amantes quanto uma boa chantagem pode proporcionar! Só eu... só eu não vivi... e agora...
- Meus amores! Mudei de idéia. Vou comer só o frango e nada de salada! Ela é toda de vocês. Eu recomendo. Está uma delícia...

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