quinta-feira, julho 03, 2008

Um ato de amor

   Sentou-se à beira do cais. Não tomou posse do momento. Apenas deixou-se invadir pelo mar. Tomar posse é fardo pesado demais. Tomar posse é para jovens. Tomar posse é sanguinolento.
   Para quem já é oceano, sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que é e sempre será parte do oceano...
   Já não existe fora e dentro. Existe... a ave de fora é a ave de dentro. As águas de fora beijam as de dentro e a espuma é a fronteira...
   O barquinho desliza livre de qualquer culpa. Livre de qualquer tempestade. A rocha não é poderosa ou resistente, ela simplesmente é. Mas simplesmente ser é um não-ato que só a Deus cabe, mas Aquele que É também é rocha e está e toda parte e já não há dentro e fora, simplesmente há...
   O azul do oceano, a resistência da rocha, o vôo da gaivota, tudo isso é varredura de palavras bestas que dissolvem o ato de amor. Mas o mar varre a sujeira das palavras para as reticências...
   Sentar-se à beira do cais é um ato de amor. É assumir, calado, que...

Um comentário:

P.F. disse...

É lindo, lindo. De não cansar nunca de ler...