terça-feira, julho 08, 2008

A receita

   Ritinha das Pelotas tirou do forno o bolo de chocolate. Com um toque a mais. Segredo de família.
   A gurizada brincava na laje e logo foram atraídos pelo cheiro bom. Correram até a fonte.
   -Vão já lavar as mãos!-ordenou Ritinha energicamente.
   Mesa posta e o bolo está uma delícia. Enquanto as crianças se ocupavam furiosamente em não se ocupar de mais nada além de todo aquele chocolate, a mãe vai até a laje recolher as roupas do varal. D.Feliciana "coincidentemente" fazia o mesmo, na leje vizinha.
   -Oi Ritinha, tudo bem?
   -Tudo.- "até agora"- e você?- "só estou perguntando por educação, sua fofoqueira."
   -Eu estou ótima. Mas que cheirinho bom é esse? Não me diga que é bolo de chocolate?!
   -É sim...- "sua fofoqueira farejadora!"
   -Ah, eu quero um pedacinho!- disse, com jeitinho ridículo de marota.
   "claro que quer! Você sempre quer um pedacinho de qualquer coisa que eu faça! Mas hoje nem vem que não tem!"-Ihhhh, a essas horas os meninos já devoraram!
   -São umas draguinhas mesmo! Um dia você ainda me dá aquela receita!
   -Mas eu já te dei, menina!- "falsa, cínica!"
   -Com o segredinho, Ritinha, com o segredinho...
   "Invejosa filha da mãe! Vai botar olho grande na receita da tua vó!"- Mas se  eu contar deixa de ser segredo!- respondeu com um sorriso amarelo.
   Foi descendo as escadas de cimento, com um balde cheio de pregadores em um braço e uma montanha de roupas no outro, gritando para os filhos:
   -É pra deixar um pedaço pro seu pai!
   Ritinha passou rapidamente todas as roupas recolhidas, limpou a casa toda, levou a roupa lavada pra casa da madame, voltou pra casa, fez a jenta dos filhos e do marido, foi costurar e por fim, preparar os trezentos docinhos da encomenda e, embora estivesse cansada, era o trabalho que mais lhe dava prazer. A comida. Sobretudo os doces, sua especialidade.
   Rita é mulata bonita que só. Cobiçada por metade da favela. Mas o marido vigia com dez olhos. O que tem de bonita tem de trabalhadora. Desde menina que não conhece outra vida. Aos nove lavava e passava roupa em casa, para três irmãos. Aos treze ajudava a mãe lavando roupa pra fora e fazendo faxina em casas de família. Nunca contou a ningué, sequer para o marido, sobre os estupros que sofreu do padrasto, dos doze aos dezoito anos, quando então conheceu Edvaldo, com que se casou por amor e por fuga. Engravidou aos dezoito anos e até os trinta e dois foram dez filhos, mas perdeu quatro crianças.
   Privações, privações e mais privações. É tudo que Ritinha conhece na vida, muito embora não conheça a palavra. Quando a ouviu pela primeira vez, pensou se tratar de algum tipo de privada sanitária. Nunca se ouviu a mulata reclamar da vida, no entanto. De fato, muito mais grata do que muita gente rica. Várias vezes deixou de comer para dar aos filhos. Sorrindo sempre, mas ralhava quando precisava ralher. Com marido ou com os filhos. Endureceu com a vida. Por milagre manteve o coração e salvou alguma ternura. Não se dobrava nem tão fácil. Quando marido canta de galo ela canta de dois galos. Não tem machismo pra cima de Ritinha. Ela coloca as mãos invertidas nas cadeiras feito pombagira e sai de baixo. Em briga com o marido já levou ematoma no rosto e braço quebrado, para dizer o mínimo. Pensa que deixou barato? Quase matou o homem. Arremessou uma cadeira na cabeça dele e não fosse um dos braços estar quebrado...
   Ritinha tem nas veias, e com muito orgulho, sangue cigano, português, africano, asiático, portoriquenho, mexicano e até americano! Como ser mais brasileira?
   Um dia, como qualquer outro, só que um pouquinho diferente. Pôs a mesa desmontável na laje, já que fazia muito calor, e começou a preparar uma encomenda de quinhentos docinhos. Enquanto isso, metade dos pestinhas brincavam de casinha. Tudo seguia seu curso normal e Ritinha já estava quase no seu ducentésimo brigadeiro quando Hillary, uma de suas filhas mais novas, veio lhe mostrar o "bolo que havia feito. Geralmente seria um prato cheio de lama, afinal é o que melhor imita chocolate. Mas ao invés, simplesmente uma bacia cheia de água.
   -Cadê o bolo, minha filha?
   -Aqui!
   -É bolo de que?
   -De água!
   Ritinha entrou em transe. Tão óbvio, esteve todo o tempo debaixo de seu nariz e no entanto quem atenta é sua filha de nove anos.
   Bolo de cenoura, bolo de chocolate, bolo de cenoura com cobertura de chocolate, colo de chocolate com cobertura de cenoura, enfim, de tudo Ritinha já havia feito. Menos bolo de água! É só preparar água gelatinosa (outro segredo de família) e colocar na forma do bolo. E com água nesse estado, dá pra colocar recheio e cobertura.
   Seria a primeira a confeccionar um bolo de água! E mãos à obra!
   Largou os docinhos da encomenda e correu para a cozinha. Agora era uma questão de se lembrar do segredo da bisa Francisca. Água gelatinosa. Embora sua mãe negue, dizendo tratar-se apenas de uma brincadeira da velha matriarca, Ritinha tem muito viva a memória da anciã lhe oferecendo uma fatia de água. Era apenas uma menina de sete anos, estava sozinha, no quarto, desenhando. Francisca entrou, sorrateiramente, e fechou a porta, não sem antes verificar se vinha alguém. trazia consigo um pratinho de festa com alguma coisa brilhante e prateada.
   -Que isso, vovó?
   -Come, filha, é gostoso.-ela comeu e não sentiu exatamente um sabor.
   -É um pouquinho mais mole que gelo.
   -Você gostou?
   -Não tem gosto de nada... mas é muito bom de mastigar!
   -Não tem sabor porque é água, mas pode ter...
   -Me ensina a fazer gelatina de água, vovó?!
   -Claro! Mas tem que guardar segredo, ó!
   -Prometo, vovó!
   E lhe contou, palavra por palavra como fazer a água chegar ao estado gelatinoso. Belo segredo. Tem que dar certo. Se bem que... as palavras Mágicas da velha Francisca... o que seria verdade? O que seria lenda? A memória do gosto é tão viva!
   Deu certo. Ficou pronto, afinal. O bolo de água com recheio e cobertura de chocolate, com direito a cerejas e granulado.
   É claro que tudo tem seu preço. Ritinha largou na laje a bandeja com duzentos brigadeiros prontos e quando voltou já não havia quarenta. E perna pra que te quero! A mulata correu atrás de cad um dos seis e ningém escapou da surra de cabo de vassoura.
   O bolo de água deu certo. Agora seria preciso muito cuidado para ninguém roubar o segredo. Principalmente a fofoqueira da Feliciana.
   A cobertura pegou bem e o recheio não ficou muito molhado. Isso porque água em estado gelatinoso não fica muito molhada.
   Ritinha escondeu o bolo no armário de seu próprio quarto. O marido seria o primeiro a provar. Não existe no universo pessoa mais chata com comida do que Edvaldo. Se ele aprovasse é porque o negócio é bom mesmo e faria sucesso lá fora.
   Dito e feito. O marido comeu de lamber os beiços.
   -É bolo de que, minha preta
   -Segredo...
   E assim foi, que o misterioso bolo de água entrou em circulação nas encomendas de Ritinha das Pelotas. As madames vinham logo pedindo o segredo e a mulata gentilmente negava.
   Os pedidos de brigadeiro, beijinhos-de-côco e muitos outros docinhos diminuíram consideravelmente. Em compensação, os de bolo de água aumentavam a cada semana.
   Começou a receber encomendas gordas. À princípio de padeiros e confeiteiros. Depois, de donos de docerias famosas, todos interessadíssimos em sua mais nova receita.
   Os vizinhos logo ficaram sabendo do sucesso da mulata e puseram olho gordo. Todos queriam provar do bolo que tanto furos estava causando nas docerias mais respeitadas da cidade. Carlinhos até deu um churrasco para comemorar o sucesso da vizinha e a mulher dele tentou embebedar Rita, a fim de arrancar-lhe a receita maravilhosa. Mas seu marido que a tudo assistia, tratou de afastar sua esposa da cobra.
   Em questão de meses Ritinha se tornou a doceira mais famosa da cidade e a fama do bolo de água já começara a se espalhar por outros Estados.
   A inveja cresceu e invadiu a casa da mulata e já era quase insuportável. O sucesso do bolo de água chamara-lhe muito as atenções sobre si e muita fama em lugar onde só tem gente pobre é perigoso.
   As encomendas cresceram tanto que Ritinha fora obrigada a cobrar adiantado para comprar mais fornos a fim de  dar conta de tantas confecções. Quem não ficou nada satisfeito foi Edvaldo que teve que se esgueirar no meio de tantos fornos de quatro bocas.
   -Tem que dar graças a Deus que está entrando trabalho, viu, seu mal agradecido!
   -Ah, é? E cadê o dinheiro desse trabalho todo que você está falando aí? Não estou vendo!
   -E nem vai ver que eu não estou aqui para sustentar burro a pão de ló!
   E mais uma briga daquelas, de vizinho ouvir, de cadeira voar, de criança chorar...
   As pazes, no entanto, foram reestabelecidas rapidamente entre o casal, assim queo dinheiro começou a aflorar. E começou rápido.
   A primeira encomenda de fora do Estado rendeu à Ritinha uma entrevista na televisão. Em emissora de pequeno porte, é claro, mas ainda assim foi assistida por toda a favela, em horário não nobre.
   De repente, todos viraram amigos de Ritinha. Um tal de "apareça lá em casa" daqui e "como voc~e está bonita hoje" dali.
   A mulata nunca havia tido conta bancária e da noite prodia não só tinha uma como depositava a cada semana quantias generosas.
   Correu na favela a notícia de que Ritinha e sua família se mudariam. talvez para uma área mais nobre. Uma área de esnobes. Uma área de gentinha burguesa que se esquece de onde veio.
   As encomendas cresciam agora geometricamente. Ritinha já não podia mais com tanto trabalho, sozinha, e botou a família no batente.
   A favela se tornara um lugar hostil. Começou a receber ameaças anônimas. As crianças eram incentivadas pelos adultos a maltratarem os filhos de Ritinha. Feliciana, é claro, não perdia uma oportunidade de provocá-la:
   Oi, Ritinha! Ficou besta, de repente, heim! Que que é? Tá cagando cheiroso agora?!
   -Antigamente, pelo menos, você disfarçava a inveja!
   -Inveja?! De você, querida?! Só se eu estivesse louca!
   O nome de Rita das Pelotas começou a aparecer nas principais revistas de culinária. "A criadora do exótico e maravilhoso bolo de água". Alguns figurões trocaram seu nome para Rita Camargo. É artístico. "Rita das Pelotas" não emplaca. A receita pode ser maravilhosa, mas se a autora tiver "Pelotas" por sobrenome, qual dondoca lhe dará credibilidade?
   Ritinha é convidada para um jantar na casa do prefeito, onde, é claro, prestigiará a todos com o bolo de água. Mas sentiu-se profundamente delocada, a despeito de todo o esforço por parte da mulher do prefeito para deixá-la à vontade. Todos os convidados eram muito chiques, muito bem penteados, muito bem vestidos, muito bem perfumados e muito bem estudados. Conversas difíceis de serem entendidas e mais ainda de serem faladas. A única coisa que Rita tinha a oferecer era o bolo. Só por isso ela era suportada em meio a convidados tão ilustres. O bolo é a única coisa que a sustenta. Sem isso, não é nada além de uma mulata favelada e analfabeta.
   Pela segunda vez Rita Camargo aparece na televisão e dessa vez em uma emissora um pouco menos desconhecida do que a primeira.
   Ritinha comprou um terreno que havia ao lado de seu barraco, para ter onde colocar tantos fornos. Aconteceu, porém, que foi prejuízo. Muitos deles foram roubados e outros tantos estragaraqm com a chuva. A mulata teve que trabalhar em dobro por um bom tempo.
   A inveja dos vizinhos cresceu a tal ponto que um dos mini botijões explodiu quando ligaram o forno. Com os cumprimentos de feliciana. Por sorte ninguém se machucou. Ritinha não deixou barato. Colocou as mãos invertidas nas cadeiras, foi até lá e arrebentou  a vidraça da vizinha invejosa. O marido da agredida foi tirar satisfações, enfurecido. Apanhou da mulata, de cabo de vassoura. Ritinha era o demônio, nessas horas. 1,58m de pura baiana rodada. A retaliação veio rápida. Três dias depois desse episódio, um dos filhos da mulata apareceu em casa todo arrebentado
   A situação ficou insuportável. A inveja já era quase visível a olho nu. Não havia dia que algum dos filhos de Rita não aparecesse machecado, não havia dia que não tentassem invadir sua casa em busca da receita misteriosa, não havia dia que não a xingassem, não havia dia que seu barraco não fosse pixado, invadido ou apedrejado.
   Quando o número da conta bancária de Rita Camargo chegou a seis dígitos, ela comprou uma casa com três quartos, quintal e garagem, no Grajaú. A comunidade, quando descobriu que ia se mudar, tentou impedí-la de sair da favela, mas os poucos amigos que a mulata ainda tinha armaram um esquema para que ela e sua família escapassem de madrugada. É claro que, no dia seguinte, alguns desses amigos amanheceram dormindo profundamente, se é que me entende...
   Ritinha se deslumbrou com a vida nova. Casa em bairro nobre, carro do ano, crianças em escola particular, jóias, televião de plasma, enfim. Todo o conforto e luxo da classe média. Só em calçados gstou$2000, 00 em um mês.
   As encomendas não paravam de crescer, Até chefs estrangeiros vieram ao Brasil para ver de perto o bolo mais famoso do mundo.
   Em pouco tempo Ritinha abriu sua própria doceria.
   Edvaldo aproveitou a maré de vida boa e passou a promover festas e cherrascos todo final de semana.
   Foi o auge. $200000,00 por mês. Eventos de todo tipo, presença vip, viagens ao exterior, até palestras, vejam só!
   Como a mulata monopolizava o segredo do bolo de água, era a única a fabricá-lo. Consequentemente as demais docerias começaram a declinar. Ligeiramente, apenas, mas o suficiente para assustar.
   Começaram a lhe propôr a compra da patente.
   -O que é patente?- perguntou Ritinha, estupidamente. Ficaram todos de queixo caído quando descobriram que o bolo de água não era patenteado. Logo pensarm em correr até o cartório, registrá-lo e passar a mulata pra trás. Mas do que adiantaria? Ritinha seria impedida de continuar fabricando o bolo mas ainda deteria o segredo. O melhor seria oferecer-lhe um bom preço pela patente.
   A mulata logo compreendeu que o mundo fora da favela poderia ser mais hostil do que dentro. Começou, então, a se defender como pôde. Fez a patente.
   Ritinha deveria ter parado enquanto estava no auge. mas estava deslumbrada demais com a nova vida. Veio o inevitável declínio.
   Começou a gastar mais do que podia. Foi roubada por empresários. Vieram as dívidas e para quitá-las precisou vender o carro, as jóias, o iate e tudo mais, Mudou-se para uma casa menor, bairro suburbano. As crianças voltaram a estudar em escola pública. As pessoas começaram a enjoar do bolo de água e Rita Camargo voltou a ser Rita das Pelotas. O marido, vendo que ia afundar junto, tratou de dar o tiro de misericórdia. Um dia, quando Ritinha voltavade uma festa com as crianças, encontrou a casa vazia. Totalmente vazia. Edvaldo levou móveis,eletrodomésticos, jóias e até os cartões. Rita sentiu-se tonta. Compreendeu que o marido havia lhe roubado a vida burguesa. Correu ao banco e a caderneta estava vazia. Nunca entendeu como Edvaldo conseguiu, em apenas algumas horas, roubar a casa inteira e a conta bancária. Uma vizinha acabou lhe contando que o viu sair de casa em uma caminhonete, ao lado de uma mulher. Na carroceria, todos os móveis.
   Hora da cartada final. Seu último trunfo, e no fim das contas, o único. Foi até a doceria mais bem sucedida da cidade e vendeu a patente e o segredo do bolo de água. Pediu por isso cinco milhões. O dono da doceria riu na cara dela e assinou um cheque de um décimo desse valor. Com esse dinheiro, Ritinha comprou móveis, carro, e casa e jóias novas. Mas a alegria durou pouco. Recebeu um telefonema anônimo Dois filhos seus foram sequestrados e pediam cinco milh~es pelo resgate, mas só lhe restava duzentos mil. Ritinha acionou a polícia e se arrependeu amargamente. Não só os federais não resgatarem seus filhos como um deles apareceu em pedaços em um dos lixões da cidade. Foi um aviso para manter a polícia fora. Ritinha acabou cedendo e pagou. Seu dinheiro acabou e seu filho foi devolvido sem uma orelha e três dedos da mão. A pobre mulher nunca saberá que os sequestradores eram Feliciana, sua antiga vizinha invejosa e Carlinhos e a esposa como cúmplices.
   A doceria da mulata, agora sem contar com o bolo de água, rapidamente foi à falância e levou Ritinha de volta à miséria, de onde nunca deveria ter saído...
   Era simplesmente uma bacia cheia de água.
   -Mamãe! Mamãe! Está me ouvindo?!
   -Que foi?- perguntou Ritinha, como que saindo de um transe.
   -Olha o bolo que eu fiz!
   -É bolo de que?
   -De água!
   Ritinha caiu na gargalhada, pôs a filha no colo e foi até a cozinha.
   -Bolo de água não presta, minha filha! A mamãe vai te ensinar a fazer um bolo de chocolate delicioso!

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