Acordou no meio da noite sem sobressalto. Sentiu ternura pela mãe. Levantou-se e foi até a janela, olhar as estrelas. Distantes como sempre... Gostava de imaginá-las lugares gélidos, solitários e de luminosidade lunar. Sua mãe havia lhe contado que estrelas eram lugares cheios de pontas, tudo de cristal. Dizia que todo cristal daqui vem de lá, em forma de pó. Também lhe dizia sua adorada mãe que estrelas eram lugares tão distantes que até hoje só um homem esteve lá e que se saiba, nunca mais voltou.
Tomou uma decisão. Tirou o pijama, lavou o rosto, vestiu-se rapidamente, foi até o quarto dos pais. No caminho parou para olhar, talvez pela última vez, os quadros religiosos que infestavam o casebre. pensou na derradeira Ceia. Um arrepio passou-lhe pela espinha. Pensou em como o Senhor deve ter se sentido ao entregar o pedaço de pão a Iscariotes.
Entrou no quarto escuro e acordou o casal.
-Que foi, meu filho?!- Perguntaram, assustados.
-Mãe, pai, vou para...
Mãe e pai olharam-se no escuro, consternados.
-Então está mesmo decidido a ir para ...?
-Sim, pai.
-Está bem, meu filho. Vai com Deus. Tem a nossa bênção. Mas não sem antes tomar café da manhã com sua família. Vá acordar seus irmãos.
Cinco, contando com ele. Dividiam o mesmo quarto. Acordaram assustados:
- O que?! Então você vai mesmo para...?
-Vou.
-Pai e mãe já sabem?
-Já. Vamos tomar café.
Sentaram-se todos à quadrada mesa redonda enquanto mãe preparava o café.
Os pais, calados. Os manos, empolgados.
- E quando foi que mano resolveu ir para...?
-Agorinha mesmo.
A mesa foi posta. Faustosa. Em certos cantos da terra das Araras é assim. Faltura no conforto e fartura na comida.
Alguns animais conversavam lá fora. Especialmente galos e bois. Porcos e galinhas são preguiçosos.
Ovos, bacon, torrada, pão, queijo, leite, manteiga, refresco, etc. A conversa foi ficando animada. Até os pais, que à princípio estavam tristes com a notícia, ficaram felizes pelo filho desertor. Até acharam bom!
-Sua mãe, seus manos mais eu vamos sentir uma saudade, mas o que importa é sua felicidade, filho.
-Obrigado, pai. Também vou sentir saudade de vocês quando for para...
Terminado o café, a luz do candeeiro foi apagada, os manos mais o pai voltaram pra cama e na sala... só ele e mãe. Sempre sobra pra mãe, ver o filho partir para...
À soleira, beijou o filho com saudade. Aquele aperto no coração...
-Vai com Deus, meu filho! Que Nossa Senhora do Amparo te acompanhe!
-Amém, mãezinha.
Foi-se, afinal. Com uma Bíblia debaixo do braço, uma muda de roupa na mochila, terço no bolso direito da calça puída e nenhum dinheiro.
Escuro tudo. Apesar da saudade, muito feliz em estar indo para... poucos os que foram.
Já quase fora das terras do patrão, olhou para trás, e mesmo sem ver, sabia que ela ainda estava lá. À soleira, parada. Coração forte que só mulher mãe!
Entrou em casa. Fechou porta e janelas, estava muito frio. Sentou-se à mesa redonda quadrada e comeu, no escuro mesmo, o resto de ovo mexido com bacon. Tão bom mastigar silêncio e saudade de filho...

2 comentários:
Desculpe a "ousadia"...
Mas lembra Guimarães Rosa. Mais especificamente, daqueles contos do livro "Primeiras estórias". Modéstia à parte...
Menino modesto...
Olha o comentário q envia a si mesmo!
Fica carente não! Não está só! Estou aqui!
(E ainda pede desculpa a si mesmo...)
"Louco!
Louco!
Enlouqueceu!
Enlouqueceu!"
hahahahahahah!
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