sexta-feira, maio 23, 2008

A redenção de Bernardino

   E lá se vão quarenta e cinco anos... de volta ao Condomínio das Pedras, vejo, com surpresa, que não mudou muita coisa. De configuração, quero dizer. As mesmas casas, o mesmo jardim, o mesmo espaço. Mais envelhecidos, é claro. No lugar das flores, folhas retorcidas e secas pelo chão. Mato crescido. A bica do nada. Ainda lá, mas toda enferrujada, provavelmente não funciona há anos. A bica do nada assim era chamada por nós porque simplesmente é uma instalação saída do chão, sem precedentes.
   Há quatro décadas e meia o Condomínio das Pedras era um belo conjunto de casas recém construídas, financiadas a preço popular. Meu pai comprou uma delas.
   Sou filho único. Meu trabalhava fora o dia todo e minha mãe deprimida cuidava da casa.
   A maioria das crianças do nosso grupo tinha histórias parecidas com a minha. Tristes. Éramos como irmãos. Só tínhamos uns aos outros. Os moradores do condomínio nos chamavam de "pedrinhas".
   Trinta e poucas crianças. Mas a panelinha (da qual eu fazia parte) era formada por apenas oito. Pedro, Joca, Lucas, Bernardino, Zé Maria, Oswaldo, Pandora e eu.
   Passávamos a maior parte do tempo juntos para não termos que ficar em casa. Zé era filho único, como eu. O pai dele era um alcoólatra e batia na família. Pedro tinha três irmãos mais velhos. Eram pedrinhas, também, mas não da panelinha. O pai dele abandonou a família assim que Pedro nasceu. A mãe quase perdeu a casa mas foi amparada por parentes. Joca era o que tinha a vida mais estável. Com pai e mãe em casa. Um dos  poucos pedrinhas que gozava de tal privilégio e da panelinha, o único. Era invejado por nós, por causa disso. Ele tinha também uma irmã mais velha, de treze anos. Sandra. Eu era apaixonado platonicamente por ela.
   Oswaldo vivia com a mãe, o padrasto e mais dois meio irmãos. Moleque arteiro. Apanhava quase que diariamente do padrasto. Lucas morava com os avós, que mal cuidavam dele. Principalmente o avô, entrevado em uma cadeira de rodas. Pandora era uma criança adorável. Doce. Vivia com uma tia que não ligava pra ela, quase nunca parava em casa e Pandora quase que vivia sozinha, ela já até tinha a chave da casa. essa tia às vezes sumia por dias. Às vezes deixava comida para Pandora, às vezes não. Quando não, a menina era acolhida pelos outros pais.
   Éramos crianças de sete a treze anos. Sei que não falei ainda de Bernardino, mas foi de propósito. Deixei a história dele por último, porque foi por causa dele que agora remonto à minha infância.
   Bernardino era o cruel da panelinha. Criança de maus instintos. Daqueles que torturam gato, beliscam crinaça pequena que não sabe falar, mata passarinho com estilingue, enfim, um sociopata mirim. Vingativo que ele só.
   Olhando agora, nem se diz que esse lugar já teve criança e algazarra. As paredes das casas enegreceram, o portão estava aberto quando cheguei e não vejo viva alma ao redor. Ando por entre as casas, ouço o silêncio de quarenta e cinco anos e esbarro em muitos fantasmas.
   A bica do nada era nossa grande atração. A água corria à vontada e voltávamos para nossas casas totalmente encharcados.
   Tentei abri-la. Como eu imaginava, nem uma gota. Minha mão ficou suja de ferrugem. No lugar de água, uma aranha.
   Nossa brincadeira favorita era subir na muretinha e pular, de preferência para derrubar o que estivesse embaixo, desprevinido. O que pulava caía nas costas do outro e ambos rolavam pela grama fofa do jardim, sem se sair com mais do que alguns arranhões. Sempre havia alguém que se distraía e outro que subia na muretinha sem ser visto... a vítima passava perto e ZÁS!
   Nem tudo é igual por aqui. reparo agora que há uma casinha que não havia no meu tempo. Pouco menor que as demais, como se fosse de um caseiro ou zelador. Fiquei curioso e me encaminhei para lá.
   Pandora era a única menina da panelinha. segundas intenções apenas por parte de pedro, Joca e Oswaldo. Para os outros, ela era simplesmente mais um de nós. Participava dos jogos e brincadeiras sem o menor embaraço por ser a única do sexo faminino.
   Lucas era o único negro do nosso grupo. Acho que  por isso que Bernardino não ia muito com a cara dele, já que essa "maçã podre" era meio racista. esse rivalidade entre os dois nunca ficou muito explícita, mas nem precisava. Sentíamos a tenção que havia entre ambos.
   Alguém, afinal, saiu da casa. Um homem baixo e manco. Usava uma capa de chuva cinza. Eu estava tão perdido no meu passado que só então notei que chuviscava. A estranha figura virou-se de perfil para mim e embora não me olhasse  diretamente, podia sentir a ferocidade dos olhos.
   Era apenas um boato, nada mais que um boato. Mas para mim era fato. Eu vi a menina que um dia se pôs de cócoras, tomou o cadáver de um passarinho entre as mãos e o reviveu. Pandora. A milagreira. O passarinho saiu voando de suas mãozinhas. Foi lindo... Bernardino também presenciou o milagre. Ficou vermelho de ódio. Ele havia atirado no passarinho com o estilingue e não contente, pisou no bichinho semi morto, acabando de matá-lo, estraçalhando-o. Pandora tomou-o entre as mãos, olhou para o céu e em questão de segundos... a ressureição.
   -Boa tarde, amigo.-Cumprimeitei, na tentativa de quebrar o gelo.
   -O senhor deseja alguma coisa?- Sua voz era pesada e rouca.
   -Não, eu... é que eu morei aqui quando era garoto e... vim fazer uma visita.-Eu sei, foi uma resposta estúpida, mas não me ocorreu mais nada.
   -O senhor deseja comprar uma casa?
   -Não.
   -Então porque o senhor veio até aqui?-Aquele sujeito estava começando a me irritar.
   -Quis recordar minha infância.
   Bernardino não aceitou perder para o Lucas na corrida dos cem metros. Ficou calado. Nós sabíamos que haveria retaliação. Só não esperávamos por uma tragédia. bernardino foi longe demais. Aconteceu enquanto brincávamos de amarelinha. Ninguém viu quando ele subiu na muretinha. Esperou pacientemente pelo momento certo. Quando Lucas passou em frente à bica do nada,Bernardino saltou. Foi tão répido que nem vimos como aconteceu. Apenas nos demos conta quando o Zé disse "Ele está morrendo". Foi quando vimos o sangue. Bernardino de pé, com sorriso de satisfação, limpando o suor da testa. Lucas agonizava. Fora atravessado pela bica quando Bernardino caiu por cima dele. Minha cabeça começou a girar.
   -Sou o zelador do condomínio- Disse secamente. Me senti afrontado.É a morada da minha infância, esse baixinho manco me trata secamente, o lugar está em franca decadência e ele tem a cara de pau de me dizer que é o zelador!
   -Está precisando de ajuda?-Perguntei o mais cinicamente que pude.
   Pandora tirou as sandálias e aproximou-se de Lucas, que não parava se se estrebuchar. Pediu que o tirássemos de cima da bica. Oswaldo e Joca se encarregaram disso enquanto Pedro e Zé seguravam Bernardino pelo braço.
   -Não preciso de ajuda.-Respondeu-me secamente. Tive ímpetos de voar no pescoço dele, com incentivo dos meus quase trinta centímetros a mais  de altura, mas me contive. Afinal, foram quarenta e cinco anos de ausência e aquele infeliz provavelmente esteve ali durante a maior parte desse tempo. Eu não tinha o direito de simplesmente quebrar a cara do zelador.
   Pandora não disse uma palavra. Pisou descalça na poça de sangue e colocou suas mãos sobre o buraco que havia na barriga dele. Todos ficamos mudos. Até Bernardino parou de gritar brados de ódio. Aos poucos, Lucas parou de estrebuchar. Pandora olhou para o alto, como da vez com o passarinho. Suas mãozinhas estavam empapadas. Bernardino começou a fazer comentários racistas, insinuando que Dorinha não deveria sujar sua mãos no sangue de um negro. Oswaldo e eu nos encarregamos que ele se calasse.
   Umas vinte crianças foram testemunhas do milagre. Mas só eu estou aqui, hoje aos 53 anos, contando essa história triste. Não sei por ande andarão aquelas crianças. Só eu voltei ao Condomínio das Pedras. Pelo menos foi o que me disse o zelador.
   A ferida que atravessou o estômago de Lucas tinha o tamanho de um limão e se fechou com a imposição das mãos de Pandora. Ela não chegou a ressuscitá-lo porque ele não chegou a morrer. Mas foi um milagre, sem dúvida. Ele morreria. Perdeu muito sangue e foi atravessado por uma bica.  Ainda assim, Lucas ficou mal por um tempo e ficou no hospital por dois dias, em observação.
   A chuva estava aumentando e aquela situação já estava me incomodando. O sujeito não me dava um fora, não me expulsava do condomínio nem me virava as costas, mas também não fazia nada além de ficar ali parado. resolvi perguntar:
   -O senhor gosta daqui?
   -Porque a pergunta?-falava comigo olhando para o vazio.
   -Sinceramente? Porque não parece gostar do lugar. Desculpa, não parece nem que é o zelador. Olha o lixo que está esse lugar.-Tarde demais percebi que havia exagerado. Talvez não. sabe o que é mais estranho? Desde que cheguei não vi ninguém saindo ou entrando das casas ou do condomínio...
   -Parece que é uma questão de honra para o senhor.
   -Bem, é que... uma parte da minha infância ficou aqui.
   -Uma parte da infância ou uma parte do senhor?
   -Acho que já vou embora.
   -Espere...
   Nós amávamos a milagreira. Foi cair nas arapucas de vingança do porco do Bernardino. Ele ficou com ódio da vez com o passarinho, mas passou. Foi só um bichinho que ele estraçalhou. Mas não ia ficar tão barato quando a garotinha de porcelana por quem alimentava uma paixão secreta resgatou da morte um menino negro. Seu orgulho fora mortalmente ferido. Bernardino... espero que você esteja vivo para carregar Pandora na consciência. Ela morreu segurando a mão de Lucas e a minha. Sorria... morreu feito carneirinha. Tranquila... bernardino pulou em cima dela e a enterrou na bica do nada. A milagreira salva o próximo, mas que salva a milagreira? Ela não estrebuchou. Fizemos uma roda em torno dela. Só nós, da panelinha, estávamos ali. Só nós sete presenciamos a morte da milagreira. Antes que ele se fosse, partimos para cima de Bernardino, dispostos a acabar com a raça dele, mas Pandora balbuciou pedindo que o deixassem em paz. Chorávamos copiosamente, sabendo que não haveria o que fazer. Morreu com o nome de Deus na boa. Morte linda, trágica.
   Não deu em nada. Os pais de Bernardino responderam em liberdade e a morte de Pandora foi considerada um acidente. Nós sete sabemos que não foi.
   Quando resolvo ir embora de vez, o zelador abaixa a capa cinza e finalmente se vira para mim, olhos nos olhos. Só então reparo que tem uma cicatriz enorme no rosto e um olho cego. Ele volta para casa, mancando...
   De repente, me dou conta. Meu Deus... esse homem se puniu de alguma maneira terrível para reparar um grande mal do passado. Olho para a enferrujada bica do nada. Ela teve a ver com essa punição, posso sentir.
   Ah, Bernardino... há tanto tempo em busca de uma redenção que nunca veio...
   Todos estão em seu lugar. O algoz já encontro seu inferno, as pedras do condomínio já tomaram seu rumo, a milagreira já é luz. E eu... perdido. Ando por entre esses quarenta e cinco anos e esbarro em muitas paredes enegrecidas. Eu sou o fantasma...
 
 
 
 
 

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