terça-feira, julho 15, 2008

Voz

   O jantar estava ótimo. Todos conversavam animadamente sobre a viagem a Paris. Como havia sido inspirador passar noites na cidade das luzaes e ouvir o acordeolonista poeta...
   -Para onde vamos no próximo verão, amor?-perguntou Sandro, galanteador.
   -Mas não é minha vez de decidir-respondeu Melissa, ligeiramente desapontada.
   -É a vez da Melinda-lembrou Leonardo, o irmão mais velho.
   -Então, querida? Onde vamos passar as férias de verão?
   -Angola-todos viraram-se sincronizadamente para Melinda.
   -Angola?! Você ficou maluca?! Fazer o que em Angola?!-Oerguntou Ângela, totalmente abismada.
   -Qual o problema?-perguntou Melinda, revoltada-eu gostaria de conhecer Angola!
   -Meu bem- ponderou Sandro- a Angola é um país pobre, feio, cheio de minas terrestres...
   -Mas é a minha vez de escolher!-insistiu Melinda.
   -Certo, mas porque não escolhe um país da Europa?- retorquiu Ângela, já irritada.
   Porque já vamos à Europa há oito verões! Porque eu gostaria de conhecer a África. E porque é a minha vez de escolher!
   -Calma, filha- interveio Melissa- realmente é a vez de elinda e temos que respeitar isso. Mas tenho certeza de que podemos chegar a um consenso.
   -É sempre assim!- disse Melinda, malcriadamente- todo mundo escolhe para onde quer ir, mas quando é a vez da Melinda, temos que chegar a um consendo!
   -Claro!Você só escolhe país esquisito!- disse Leonardo, debochadamente.
   E vocês continuam as mesmas pessoinhas medíocres de sempre!
   -Ei, mocinha! Pega leve, está bem?!- respondeu Sandro, severamente.- Bom. Já que ninguém, além de Melinda, quer passar as férias em Angola e vocês são incapazes de chegar a um acordo, sua mãe e eu decidimos! E fim de papo!
   Houve desagrado geral. Osirmãos protestaram, a mãe pedia calma e o pai se concentrava no prato de comida.
   Pobre elinda. Linda, rica, na flor da idade, mas presa em sua própria casa. Em sua própria família. Em sua própria garganta. Era diferente do resto da família, só isso. Mas as pessoas são implacáveis com quem é diferente. E Melinda era muito diferente dos pais e dos dois irmãos mais velhos. Diferente nos gostos e na alma.
   Certa vez, a adolescente rebelde deu uma de Buda brasileira. Fugiu de casa com trinta mil dólares que roubou do quarto dos pais e distribuíu a pequena fortuna aos mendigos da cidade e entre algumas ong's. Não contente, viveu entre os indigentes por très meses até ser encontrada pela polícia. estava dez quilos mais magra, suja, totalmente abatida e vestida em andrajos. Por essa ocasião, a família ficou sem falar com ela durante meses. A única que lhe dirigia a palavra era sua mãe. No entanto, é interessante notar que Melinda não é simplesmente uma patricinha querendo aparecer porque se assim o fosse, teria voltado para casa em menos de uma semana, com o rabo entre as pernas.
   Na escola, Melinda era boa em todas as matérias. Não brilhante, apenas boa. Tinha ótimas idéias sobre História e biologia, mas sempre era ignorada pelos professores.
   Uma gaiola de ouro, onde Melinda passava seus dias. Um palacete com câmeras eletrônicas por todos os lados, cinco pit-bulls no quntal e dois trogloditas fazendo a segurança.
   Quando a casa estava para ser pintada, todos opinaram na cor. Melinda escolheu beje. Melissa disse gostar da idéia da filha mais nova e saiu com os pais para comprar os galões. Voltaram com o amarelo e diante da decepção de Melinda...
   -Ah, filha, desculpe... mas seu pai e eu decidimos que a cor que sua irmã escolheu é melhor.
   Nem o sabor da sobremesa a caçula tinha o direito de escolher.
   - Sorvete de limão, Melinda?! Melhor creme com flocos, limão é azedo!
   No jantar do próprio aniversário foi reprimida por um motivo tolo. Ela apenas pediu que passassem o sal. Foi ignorada. Pediu uma segunda, uma terceira e uma quarta vez e ontinuou sendo ignorada. Depois de meia hora (literalmente) sem ser atendida...
   - PODE ME PASSAR A MERDA DO SAL???!!!
   Todos se chocaram. Oh! Ela xinga! Ela tem boca!
   - Seu jantar acabou, Melinda. Pode ir pro seu quarto. E só vai sair quando nós decidirmos!-ralhou o pai.
   -Ela tem estado muito ansiosa, ultimamente- disse Leonardo, comtoda sua sabedoria de estudante de psicologia do quarto período.
   A sugestão de que Melinda fosse para um tratamento psicológico foi logo aprovada por todos e ela foi. À força.
   QuandoMelissa vai às compras sempre pergunta a todos se querem algo da rua. E todos fazem pedidos. Só o que Melinda pede é esquecido...
   Antes fosse de propósito que a tratassem com indiferença. Era o que Melinda gostaria...
   -Mãe! Amanhã terá reunião de pais na escola. Você pode ir?- Melissa continuava seus afazeres como se nada tivesse acontecido.
   -Mãe!
   -Oi filha... disse alguma coisa?
   -Amanhã é a reunião de pais. Você pode ir?
   -Claro, claro!
   Melissa, é claro, não foi à reunião. Como de costume, o que Melinda disse entrou por uma orelha e saiu pela outra. E quando foi cobrar da mãe...
   -Ah, filha, desculpa! Nem tinha te ouvido direito...
   Quando Melinda pegou emprestado o vestido da irmã, as duas brigaram feio. Ângela jurava de pés juntos que Melinda pegou o vestido sem pedir. Mas pediu. Melinda pediu e Ângela balançou acabeça, afirmativamente, de má vontade, apenas para despachar a irmã.
   Durante um jantar de família, Melinda tocava piano lindamente. Quando perguntou o que achavam da música, responderam todos ao mesmo tempo, de maneira vaga, evasiva...
   -Boa, muito boa...
   E assim foi que Melinda emudeceu. Ninguém reparou. Não reparavam mesmo quando falava...
   Passou a fazer as refeições no quarto. Ninguém reparou. Passou a fazer de seu quarto o seu mundo. Ninguém reparou... passou a não existir. Ninguém reparou...
  

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