domingo, setembro 13, 2009

Sol da Liberdade?!

"Ouviram do Ipiranga às margens plácidas".
Me pergunto, embasbacado, o que gera o fenômeno de milhares, centenas
de milhares ou mesmo milhões de seres humanos que estranhamente se
autodenominam brasileiros, cantarem o Hino Nacional com tamanha
solenidade e pompa mesmo que não saibam do que se trata a letra...
mesmo que não compartilhem, em suas vidas reais, o que diz a letra do
Hino.
É uma música marcial, feita sob o espírito militar de "Ordem e Progresso".
Nada contra os militares, apenas me parece um tanto mesquinha a idéia
de cultuar uma música (alcunhada de "Hino Nacional"), como se fosse
uma música que de fato representasse o Brasil...
Aliás, me parece mesquinha a simples idéia de fronteiras, quanto mais
aclamações exarcebadas, e por vezes mentirosas, de tribos gigantes que
chamamos de países.
A diversidade é uma coisa maravilhosa, inigualável, de fato. Expressa
e representa, a meu ver, a abundância e generosidade de Deus. Muito
bem, diversidade (inclusive e principalmente) cultural é uma coisa.
Fanatismos e nacionalismos bestas é outra "cousa" bem diferente...
A simples idéia de nacionalismo me assusta um bocado, pensando que é
uma conceito muito próximo, uma fronteira de fato muito tênue com a
ditadura, o regime totalitarista.
Não proponho uma Revolução, nem que se oponha ao Hino Nacional, mas
pelo menos, antes de cantá-lo com a mão no peito, e de pé, reflita um
pouquinho sobre a letra...
Ninguém ouviu do povo um brado retumbante porque o povo nunca bradou!
Povo heróico?! Onde?!
"E o sol da Liberdade em raios fúlgidos
Brilhou no céu da pátria nesse instante"
Sol da Liberdade? Para quem? Assim, da noite pro dia, com a
Independência, o maravilhoso sol da Liberdade brilhou, e todos foram
felizes e libertos? Acho que esse sol foi muito pequeno, porque para
os escravos, por exemplo, esse sol não iluminou quando "brilhou no céu
da pátria" naquele instante, nem tão cedo iluminaria...
Conquistamos mesmo nossa igualdade com braço forte? Que igualdade?
Aquela entre brancos e negros é que não foi! "Conquistar" é uma
palavra muito forta para a História da Independência brasileira. Não
conquiatamos nada, a Independência se deu por uma acordo que envolveu
o triângulo "Brasil, Portugal e Inglaterra". O Brasil fez um
empréstimo com a Inglaterra (desde aquela época se endividando, vejam
só) para pagra sua indepêndencia. Com esse dinheiro, Portugal saldou
sua dívida com a Inglaterra. Mesmo assim, isso só foi possível porque
o Rei de Portugal e o imperador do Brasil eram pai e filho.
"Dos filhos desse solo és Mãe gentil" ?! Não sei quanto a você,
leitor, mas eu, como brasileiro, espero há 25 anos por essa tão falada
"Maternidade", que até hoje não veio. O brasil não é, nem nunca foi
uma Mãe generosa para seus filhos, tal como nosso digníssimo
Presidente profetizou, recentemente. Nunca me deu nada, generosamente,
como uma mãe faria. Tudo que tenho e sou é fruto de meu esforço e
trabalho. Se algum dia o Estado, essa "Mãe gentil" me ofereceu alguma
coisa "generosamente", como educação, lazer e trabalho, não fez mais
do que obrigação, prevista por lei a todo e qualquer cidadão.
"Deitado eternamente em berço esplêndido"
Desde quando nosso berço é esplêndido? O berço brasileiro eu te digo o
que foi. Um amontoado de africanos escravizados, criminosos europeus
(o que havia de pior na sociedade européia, a escória mesmo), e
comerciantes ávidos feito lobos enviados e vindos de toda parte para
cá. O Brasil, em seu berço nada mais era do que uma bela e gorda
colônia de Portugal, lixão da Europa e paraíso para os caçadores de
metais preciosos... lixão da Europa, e parece que ainda hoje pensam
assim da gente, já que recentemente chegou uma remessa de lixo
hospitalar vinda da Inglaterra.
"Verá que um filho teu não foge à luta". Nem vou comentar...
"Nem teme quem te adora à propria morte". Tudo bem, pode até ser que
aquele que adore o Brasil à propria morte não tema... mas quem adora o
Brasil à própria morte?! Só Policarpo Quaresma... eu, particularmente,
jamais daria minha vida por uma idéia tão tola quanto pátria, muito
semelhante a tribo, pensamento tribal, fracionário e refratário e
jamais fraternal.

Trabalhei durante um tempo em uma escolinha particular do subúrbio, do
tipo fundo de quintal, e no meu último dia lá, um aluno meu disse em
meu ouvido que "a tia" não sei das quantas mandou que eu cantasse o
Hino Nacional com as crianças, ao final da aula. Esclareça-se: sou
professor de Música. Não cantei o Hino com as crianças, é claro. Não
tanto por convicções políticas, mas simplesmente porque não dava tempo
de preparar a música com as crianças. Esse incidente me fez pensar
bastante. Desde muito pequenos somos adestrados ("educados" seria uma
palavra que não expressa em sua totalidade o que quero dizer) a cantar
o Hino Nacional, somos incitados e excitados por uma série de
pensamentos patrióticos e brasileiros... quanta tolice... tão melhor
seria se fôssemos educados a abdicarmos de fronteiras... educados e
sermos gente, seres humanos, irmãos, e não brasileiros, portugueses ou
italianos! Somo irmãos, somos humanos, animais racionais da mesma
espécie, somos gente. Somos isso tudo antes de sermos pertencentes a
tribos. Nos globalizamos virtualmente, derrubamos praticamente todas
as fronteiras virtuais com a Web e isso, a meu ver, é maravilhoso. Mas
ainda falta derrubasmos as outras fronteiras. As geográficas e
sobretudo, as mais difíceis de serem derrubadas: as fronteiras dos
nossos corações. As fromteiras do ódio, da indiferença, do patriotismo
tolo, do racismo, do nacionalismo perigoso, etc.
Os grupos, as tribos continuariam existindo, mesmo sem as fronteiras
geográficas, é do ser humano, o traço da diversidade, está em nossa
alma. Então, não entendo o receio tolo de alguns que falam em "perda
de identidade cultural"... as identidades, esse conjunto de
particularidades que em parte nos definem e com as quais nos
identificamos sempre existirão, com ou sem fronteiras. Melhor que seja
sem...
Sou um idealista, confesso. Imagino e sonho com um mundo sem soldados,
sem militarismo, sem guerras e sobretudo sem fronteiras.
Essa idéia de soberania é assustadora e perigosa. Levou e leva
milhares, milhões à morte. Em nome da soberania Nacional (e nesse caso
em nome de "Alah"), judeus e árabes se degladiam há séculos, há
milênios por um pedaço de terra.
Recentemente o Brasil adquiriu caças e submarinos franceses que,
segundo nosso Presidente, servirão para defender a área do Pré-sal.
Puxa, mas peraí! Defender de quem?! Não quero nem imaginar quantos
milhões foram gastos na compra dessas geringonças. Milhões esses que
poderiam (e deveriam) ser utilizados para ajudar o povo brasileiro,
para ajudar quem precisa, para ser uma "Mãe gentil" ao seus filhos!
Caças e submarinos??? Pffffff...
Nosso paiseco de 500 anos tem quase 400 de escravidão, praticamente
100 de ditadura militar e pouco mais de 20 em regime "democrático".
Nossas ruas deveriam ter nomes de antigos escravos, já que foram eles
que tiveram suas vidas e liberdades roubadas, já que foi à base de
trabalho escravo que em quase quatro quintos da História do nosso país
nosso regime se fundamentou.
Heróis Nacionais? Quem? Caxias, o pacificador? Aquele que dizimou
praticamente toda a população masculina do Paraguai, em nome da
soberania Nacional? Quem mais? Melhor parar por aí...

Cadê a História do Brasil? Está aí, diante dos nossos olhos, milhões
desempregados, centenas de milhares de favelados, em grande parte
descendentes de antigos escravos e o nosso presidente comprando caças
franceses para "defender" o prá-sal, sabe lá Deus de quem...

Brasil. Uma promessa não cumprida, cuja História é uma grande piada,
de bom gosto até, mas uma piada, ainda assim.

Vanusa. Não se envergonhe pelo mico que você pagou na Assembléia
Legislativa de São Paulo. Eles mereceram. Você deveria ter tomado um
pouco mais de cuidado para não se expôr enquanto artista, não por
estar cantando o Hino Nacional, que afinal de contas, praticamente
nenhum brasileiro sabe cantar...

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